20 junho, 2017

PEDRÓGÃO GRANDE



Até aí tinha corrido tudo bem. Ao pôr o chapéu no cabide dos chapéus e o guarda-chuva no suporte para guarda-chuvas, pensava que se Deus não estava no Céu e se nem tudo estava bem na Terra, estava-se tão perto disso que não fazia diferença. Não tinha sequer o menor indício de um palpite, se é que me entendem, de haver à espreita, numa esquina, o amargo despertar, com um saco cheio de chumbo na mão, pronto para me rachar o occipital. P.G. Wodehouse, Época de Acasalamento

Bem sei que o momento não é para comédias. Mas no meio de tanta tristeza com o destino das vítimas, foi de um texto humorístico que me lembrei a respeito do horrível incêndio de Pedrógão Grande: Época de Acasalamento. P.G. Wodehouse é um daqueles humoristas que, na alegre companhia de Jerome ou de Waugh, é de certo modo herdeiro da espirituosa escrita de Oscar Wilde, ou indo mais a montante, de Sterne. O ambiente natural dos livros de Wodehouse é o da aristocracia rural inglesa com os seus pequenos castelos, apimentado com fleumáticos mordomos. Aliás, vale a pena conhecer Wodehouse nem que seja só para conhecer Jeeves, um mordomo que lê Espinosa e que é capaz de reagir a um terramoto de magnitude 8 na escala de Richter como a um chá que está demasiado quente, sendo apenas preciso deixar arrefecer um pouco. É precisamente para um desses aristocráticos castelinhos que povoam o countryside inglês, habitado por cinco tias e um sobrinho, que somos levados no referido romance. É de um diálogo entre duas dessas tias que retirei esta passagem:

- Onde é que está Mr. Wooster?
- Pois é - interveio a tia de óculos. - Devia ter chegado esta tarde e nem sequer enviou um telegrama.
- Deve ser  um jovem bastante imprevisível.

Considerar alguém «imprevisível» não é nada de especial. No caso, porém, de conseguirmos entrar na cabeça bem mobilada de uma aristocrata inglesa cheia de 9 horas e chá das 5, percebemos que considerar alguém imprevisível não anda longe de uma maldição, de um desprezo por quem sai dos eixos de um mundo onde reina uma ordem absoluta, da qual não se pode fugir um milímetro sem cair no perigo de se tornar num feroz anarquista. Ora, assunto que se tem discutido muito nos últimos dias é a previsibilidade ou não previsibilidade das condições meteorológicas nos dramáticos dias do Pedrógão Grande. Há quem diga que não, que tudo aconteceu devido a um conjunto de condições naturais excepcionais, não havendo por isso capacidade de resposta adequada. Mas também há quem diga que, apesar disso, ou seja, condições anormais, muita coisa continua a falhar. Em que ficamos?

Ora bem, quem pensa que um acidente se deve sempre e necessariamente a um erro humano, padece de um optimismo fanático face aos desígnios da natureza humana. Acredita que se aprendermos a pôr sempre o chapéu no cabide dos chapéus e o guarda-chuva no suporte dos guarda-chuvas, a vida não apresentará grandes surpresas. Nesta linha de pensamento encontramos os revolucionários franceses do século XVIII, os socialistas científicos e positivistas do século XIX ou até mesmo uma mentalidade tecnocientífica já muito século XX. Era o tal mundo ordenado de que falava Stefen Zweig antes de surgir aquele dia de Verão de 1914 em que os europeus começaram a rachar os occipitais uns dos outros. Quem pensa assim não vê bem a coisa pois por muito racionalmente, cientificamente, tecnologicamente, que se organize a vida e a sociedade, há sempre um tijolo que cai em cima da cabeça de alguém que está no sítio errado e à hora errada. E enquanto formos humanos as coisas serão assim. No aristocrático mundo rural britânico o chá pode ser sempre servido da mesma maneira e à mesma hora mas a vida é muito mais labiríntica do que, e por muitas divisões que tenha, um vetusto castelinho inglês. E isso faz entrar a «desordem da imprevisibilidade» nas nossas vidas. Parece que as chamas de Pedrógão Grande faziam parte desta desordem e, quando assim é, o resultado só poderia ser terrível, fosse aqui, nos Estados Unidos, no sul de França ou na Austrália, como aliás tem acontecido.

Se a natureza, que com as suas leis que a tornam tão previsível, tem as suas imprevisibilidades, já os seres humanos, que têm tanto de imprevisível, têm as suas previsibilidades. E os portugueses especialmente as suas. Suas tão suas que cada vez me convenço mais que fazem parte do seu atávico património genético. Em matéria de incêndios, chega a ser verdadeiramente chocante a previsível previsibilidade dos portugueses. É verdade que não se pode fazer tudo para anular o imprevisível mas também é verdade que há muita coisa que não é feita para tornar mais imprevisível a previsibilidade dos incêndios em Portugal. Pedrogão Grande pode ser uma daquelas anormalidades que de tempos a tempos assolam a normal vida das pessoas. É assim na natureza como é assim na história e quando o vulcão chega a certo ponto já será difícil contê-lo. Mas se o imprevisível fogo já lá vai, virão agora de seguida os previsíveis de todos os anos e que já fazem parte do nosso quotidiano como o chá das 5 num castelo inglês. Só que ao contrário do que esperam as tias do castelo inglês, seria bom sermos verdadeiramente surpreendidos com imprevisíveis medidas que tornassem os previsíveis incêndios da época de Verão. alguns dos quais irão ser igualmente terríveis, um bocadinho menos previsíveis. Mas isso é coisa que, previsivelmente, claro está, não se vê e, previsivelmente, não se vai ver. Se os chapéus estivessem mesmo colocados no cabide dos chapéus e os guarda-chuvas no suporte para guarda-chuvas, iríamos continuar a ter occipitais rachados mas seriam, certamente e previsivelmente. muito menos.

P.S. Excelente crónica, a de António Guerreiro, hoje, no Público.