30 junho, 2017

O QUARTO VAZIO


O meu avô paterno foi um intrépido republicano, usava avental, ateu e anti-clerical. Eu estava num quarto ao lado dele quando morreu, na casa do Luso para onde os meus avós iam todos os anos no Verão fazer termas, mas pouco me lembro dele. Sei que era boa pessoa, amigo do seu amigo e que se dava com toda a gente. Prova disso era a sua relação com o padre Búzio de quem era bastante amigo e presença assídua lá na ourivesaria para dois dedos de conversa, sem que isso abanasse as suas convicções. Um dia o meu avô adoeceu e o padre Búzio foi lá a casa para o visitar. Chegado à porta do quarto, perguntou se podia entrar. Conta quem lá estava que o meu avô respondeu: «Se vem aqui como padre, não entra, se vem como amigo, seja então muito bem-vindo!». E entrou. Não sei se foi durante essa doença ou se noutra, o meu avô teve umas febres que o fizeram delirar. Num desses delírios viu a Nossa Senhora de Fátima aos pés da cama. Quando voltou a si não se lembrava de nada. E que não, que não podia ser, como era lá isso possível, coisa mais absurda que essa não podia haver. E proibiu que se voltasse a abordar o assunto, logo transformado em tabu. Pena essa gente estar só viva numa altura em que eu andava a jogar ao berlinde. Hoje, com tantas perguntas, estão todos mortos.

Um delírio é um delírio, vale o que vale, e muitos podem não valer nada. Mas este delírio do meu avô não deve ser deixado em saco roto. O meu avô detestava a religião, as crenças irracionais, a fraude de Fátima, a igreja, a padralhada. Como é possível um homem daqueles ver a Nossa Senhora aos pé da cama? É possível porque o ódio tem uma coisa em comum com o amor: a dependência e a valorização de quem odiado ou amado. Tal como no amor, odiar alguém significa valorizar essa pessoa, dar-lhe um peso importante, colocá-la bem no centro da nossa vida, dos nossos pensamentos, emoções, sentimentos. No fundo, o ateísmo do meu avô, ainda que pela negativa e de um modo reactivo, acabava por torná-lo tão dependente da religião e da igreja como um padre ou uma beata de sacristia. A mesma dependência dos franceses iluministas do século XIX, de anarquistas russos ou niilistas do século XIX, comunistas do século XX, para quem a religião tem uma importância estruturante. Nós somos queremos destruir o que é importante, desejo inexistente perante o que nos é indiferente ou sentimos desdém.

Em sentido inverso, isto também pode ajudar a explicar o fascínio dos crentes relativamente a filósofos ateus. Há uns anos, num casamento vi um padre no altar, no seu discurso aos noivos, citar Nietzsche. Nem queria acreditar no que estava a ouvir. Claro que o fez reactivamente mas não deixou de ser estranho. Há menos tempo, tive um professor católico, ligado igualmente à Universidade Católica, que leccionou um seminário de Filosofia da Religião exclusivamente centrado na Essência do Cristianismo, de Ludwig Feuerbach. E já tenho lido coisas de pessoas com maior ou menor ligação à igreja, invocando autores "inimigos". Não é de estranhar este interesse ou mesmo atracção por tais autores. Tal acontece precisamente porque vêem no ateísmo militante uma atitude que coloca a religião no centro dos problemas, das discussões, dos pensamentos, e se continua a haver pessoas que odeiam a religião é porque esta ainda preserva suficiente importância para tal. Está hoje a acontecer uma enorme afastamento das pessoas face à religião, a qual tem vindo a perder cada vez mais influência social, moral e espiritual. Ora, continuar a alimentar discussões sobre a existência de Deus, sobre o papel da religião, sobre as suas vantagens e desvantagens, significa continuar tais matérias ligadas à máquina, ainda com sinais vitais. No fundo, continuar a alimentar romanticamente uma paixão por questões teológicas e religiosas, ao contrário da cada vez maior actual indiferença. Formou-se aqui em Torres Novas um movimento contra a vinda do papa a Fátima, denunciando ao mesmo tempo o milagre de Fátima como um embuste. Eu fui solicitado para assinar uma petição. Não assinei, considerando-a um acto de rebeldia meio infantil e até a roçar alguma parvoíce. Mas não deixou de ser estimulante e engraçado o romantismo do movimento, uma tentativa de regresso às quezílias religiosas da I República ou do século XIX. Pessoalmente, considero bem mais saudável a tolerância actual, em que cada um acredita ou não acredita no que quer e ninguém chateia ninguém por isso. Mas lá é que eram tempos bem mais animados, não há a menor dúvida. Se fossem vivos, creio que hoje o padre Búzio entraria sem qualquer problema no quarto do meu avô enquanto padre. Porém, já não haveria esta história para contar, nem delirantes visões para esconder.