28 junho, 2017

O QUADRO MAIS FEIO DO MUNDO


Acabo de eleger este quadro como o mais feio do mundo. Pronto, estas coisas valem o que valem, haverá certamente muitos quadros tão feios como este mas algum teria que ficar. O meu problema agora é a dificuldade em explicar por que razão este quadro é feio, num mundo onde haverá muita gente que o apreciará e do qual até gostaria de ter uma reprodução na parede da sala. Será o tema, um homem e uma mulher, aristocratas ou burgueses, beijando-se num jardim? Não, o que não falta na arte são belos quadros de homens e mulheres aristocratas ou burgueses em jardins, beijando-se ou não. Serão as cores? Mas nós vamos encontrar estas mesmíssimas cores em grandes quadros, clássicos ou modernos. Será o modo como o pincel desfigura ou distorce as figuras, criando apenas uma vaga impressão? Mas isso seria destruir parte da riqueza do Impressionismo. Também não me parece haver aqui nada de especial com a luz de modo a vermos nela a chave para a absoluta fealdade deste quadro. Eis, portanto, uma tarefa tão complicada perante uma realidade que, sendo apenas feita de desenhos, cores e luz, parece ser de uma enorme simplicidade.

Talvez o rosto humano nos possa dar uma ajuda. Um rosto é muito simples, feito apenas de boca, nariz, dois olhos e uma testa, num fundo de carne, osso e pele. Como explicar então haver rostos que vão desde o muito bonito ao muito feio, passando por outros que são apenas bonitos ou apenas feios, e outros ainda que nem são bonitos nem feios? Apenas uma boca, um nariz, dois olhos e uma testa em comum, porém, que tremendas diferenças. Haverá ainda pessoas que passaram de um rosto bonito para um rosto feio e outras de um rosto feio para um rosto bonito. Podemos dizer que há uma explicação objectiva para isso. A pessoa X tinha um rosto bonito mas engordou bastante e ficou feia. Ou o contrário, a pessoa Y tinha um rosto bonito mas emagreceu muito. Mas não resulta. Há pessoas bonitas e feias com rostos magros, pessoas bonitas e feias com rostos redondos ou cheios. E haverá mesmo pessoas que, ao contrário da pessoa X, se tornaram mais bonitas porque  o rosto ganhou volume ou ao contrário da pessoa Y, se tornaram mais bonitas porque o perdeu.

Será possível invocar regras que determinem de um modo objectivo os diferentes resultados? Façamos o seguinte exercício. Estamos com duas imagens à frente, uma com um rosto bonito, outra com um rosto feio. Uma pessoa, que não está a vê-las, pede-nos para explicar por que é um dos rostos bonitos e o outro feio. Nós olhamos para as duas bocas, os dois narizes, os quatro olhos, as duas testas em duas superfícies de carne, osso e pele e no caso de não haver deformações, desvios ou desproporções demasiado óbvias, não me parece provável encontrar uma explicação objectiva baseada em conceitos e regras. Apenas a visão dos dois rostos permite compreender por que é um bonito e o outro feio, tal como um sabor bom e um sabor mau, um cheiro bom ou um cheiro mau, que só podem  ser entendidos se experienciados, nunca através de conceitos ou descrições verbais. E mesmo olhando para a boca, para o nariz, para os olhos e para todos os pormenores do rosto, individualmente, podemos não ver nada de errado. Boca normal, nariz normal, olhos  normais. O que resulta errado é a específica combinação entre eles que resultou mal. Bastaria colocar o nariz de outra pessoa por cima daquela boca e o resultado já poderia ser diferente. Ou então aquele mesmo nariz sofrer uma pequena alteração para logo dar origem a um rosto esteticamente mais depurado, aliás, tal como também num sabor ou num cheiro.


Ora, o que se passa com a pintura pode ser da mesma natureza. Se começarmos a desconstruir este quadro, separando os seus elementos que assim ficam descontextualizados, não haverá nada de especialmente errado nele. O que está errado é a maneira como todos os seus elementos particulares se conjugam no todo, dando origem a este verdadeiro crime de lesa-arte. As duas figuras e o carro, por estranho que possa parecer, não estão necessariamente erradas, o que está errado é a sua escala. Pensemos, por exemplo, no Boulevard des Capucines pintado por Monet ou no Boulevard de Montmartre à noite pintado por Pissarro. Se o casal e o carro fossem proporcionalmente enquadrados naqueles dois quadros, o efeito resultaria completamente diferente. Já aqui enchem o quadro de uma maneira que resulta esteticamente assassina. As duas figuras humanas quase a metade direita, o carro quase toda a metade esquerda. É verdade que existem quadros onde figuras humanas a beijarem-se ocupam uma área considerável da tela e são belos. O quadro de Klimt é disso um bom exemplo. Mas tal acontece porque as cores são outras, as roupas são outras, a espacialidade é outra, o fundo outra, havendo porém alguns destes elementos que noutro quadro poderiam contribuir para o desvirtuar. Se as cores fossem combinadas de outro modo ou com alguma variação dos seus matizes, assim como  a forma da qual resulta a construção da espacialidade do quadro, também o resultado poderia ser bem diferente. Por incrível que pareça, há pequenas manchas cromáticas comuns aos dois quadros (aliás, todas as cores do quadro horrível podem ser encontradas em belos quadros), a grande diferença está no modo como são combinadas, na sua escala e nos seus matizes. A diferença é que nos quadros de Klimt, Monet e Pissarro está tudo certo, enquanto neste está tudo absolutamente errado. Também na música é possível tornar as sonatas Für Elise e Mondschein de Beethoven em versões musicais deste quadro, se cantadas por Marco Paulo, acompanhado por guitarras, órgão, bateria, saxofone os mesmos instrumentos que estão na base de grandes composições no Rock, no Jazz, nos Blues. Ou seja, a música perfeita mas para um piano, os instrumentos perfeitos mas não para sonatas de Beethoven. O efeito estético resulta assim de um jogo onde as diferentes partes se combinam livremente, sendo determinantes pequenas variações e conjugações que, como num rosto, se forem as correctas terão um efeito estético agradável, se incorrectas deitarão tudo a perder. Neste quadro, tudo, mas mesmo tudo, foi deitado a perder.