05 junho, 2017

ESTARÁ A MÚSICA CLÁSSICA FORA DE MODA?


«Estará a música clássica fora de moda?», questiona-se no último suplemento cultural do La Libre Belgique. A pergunta motiva-me dois comentários. 

Em primeiro lugar, a música clássica nunca esteve na moda, mesmo quando não existia o pop, o rock, o jazz, os blues, o pimba, a chamada música ligeira propriamente dita, o hip-hop, o techno e mais não sei quantos géneros ou sub-géneros cujos nomes não sei nem quero saber. Nada do que é propriamente erudito esteve alguma vez na moda, ou se esteve foi apenas fugaz e relativamente, e a chamada música clássica não é excepção. A esmagadora maioria da população europeia do tempo de Vivaldi, Bach, Beethoven, Chopin ou Mahler, nasceu, viveu e morreu sem nunca ter havido nada destes compositores. Mas não ouviram música, não dançaram? Sim, ouviram música e dançaram precisamente o que nos respectivos tempos equivaleria ao que hoje não é considerado clássico mas popular. E mesmo entre os consumidores de música erudita, há que ver o elemento social e pragmático da música, que para nós, hoje, é clássica e apenas nada mais que clássica, ligada a casamentos, baptizados, funerais, missas, festas, bailes, fogos de artifício, passeios de barco no Tamisa para deleite de Jorge I, ou eventos sociais onde a música serve de fundo ambiental para objectivos extra-musicais como o de ver e ser visto, seduzir e ser seduzido, a mesma função exercida pelo valor gastronómico de uma ementa num importante almoço de negócios, comparado com o que possa ser uma verdadeira e genuína experiência gastronómica. Sentar hoje 500 pessoas em frente a um palco, num fim de tarde ou depois de jantar, para, sossegadinhas e com ar de erudito deleite, ouvirem músicas que noutro tempo tinham uma função pragmática não permite uma comparação justa. É como apreciar na quieta vitrina de um museu um vestido que foi especialmente desenhado para ser visto a rodopiar durante uma dança. Neste sentido, a música clássica só pode mesmo estar fora de moda, como estaria na altura se lhe faltasse o elemento pragmático que lhe dava sentido. Como estará ainda fora de moda pelo facto de géneros musicais mais simples e populares se terem apropriado dos seus padrões melódicos, tornando-se mais acessíveis para um ouvido moderno, seja para induzir emoções de alegria, seja para comoções dramáticas ou melancólicas. Aliás, o mesmo que faz a moda ao nível do vestuário, copiando-se muitas vezes padrões clássicos usados em serões palacianos para os adaptar à leveza moderna, incluindo fatos de banho para serem usados em praias e piscinas.

Em segundo lugar, e pensando agora num sentido menos lato de «música clássica», a pergunta parece-me falaciosa, aliás, como a esmagadora maioria das generalizações. Se me perguntarem se gosto de música clássica sinto-me metido numa armadilha conceptual muito maior do que me perguntarem se gosto de comer. Se eu disser que gosto de comer ninguém vai pensar que tenho de gostar de tudo que seja comestível. Mas se eu disser que gosto de música clássica isso já parece implicar que goste de tudo o que seja música clássica. E o mesmo se passa com o Jazz. Gostar de Jazz implica gostar ao mesmo tempo de Duke Ellington e de Sun Ra? Do Chic Corea «eléctrico» e do Chic Corea «acústico»? Do Miles Davis dos anos 60 e do Miles Davis dos anos 80? Há muitos anos, vinha eu a sair de um concerto de Cecil Taylor nos jardins da Gulbenkian, indo à minha frente o saudoso Luís Villas Boas. O homem ia furioso, indignado, revoltado, queixando-se da péssima propaganda para o Jazz que era ouvir o pianista norte-americano. Eu ia divertido sobretudo porque tinha gostado bastante do concerto. Ora, com a música clássica passa-se o mesmo. Gostar de música clássica não implica gostar de tudo que seja clássico só porque é clássico. Pode-se gostar especialmente de música barroca, o que não implica gostar de tudo que seja barroco. Pode-se gostar especialmente de Bach, o que também não implica gostar de tudo o que Bach tenha composto. Se a primeira experiência clássica de uma pessoa cujo ouvido está educado pela música ligeira for uma sinfonia de Bruckner, provavelmente irá rejeitar a música clássica. Se for a Marcha Turca, de Mozart, provavelmente irá gostar e aberta para continuar a explorar. Ou seja, mesmo na música clássica, haverá sempre composições mais conhecidas e populares do que outras, nem que seja pequenos excertos para a publicidade (como aconteceu há uns com Prokofiev no perfume Égoïste, da Chanel, excelente, diga-se), no cinema (Strauss no 2001 Odisseia no Espaço) ou para dar um toque kitsch em situações de elevada solenidade. Mas isso não significa que alguma vez passe a estar na moda. O que irá sempre haver é um grupo restrito (talvez cada vez mais restrito) de pessoas que privilegiam a chamada música clássica para satisfazer as suas necessidades de fruição musical. Mas isso será assim no futuro como já o era há 50 anos quando qualquer cantor popular espanhol, italiano ou francês ensombrava os maiores gigantes da música clássica. Daí a pergunta do suplemento belga me parecer, para além de falaciosa, desnecessária. Tal como os velhos cortes de alfaiate não irão superar a rapidez e facilidade do pronto-a-vestir, também o pronto-a-ouvir irá sempre ditar os gostos da moda ao longo das quatro estações.