27 junho, 2017

ENTRE MONGES

John Malmin

Hoje, vigilância no exame de Geometria Descritiva: 3 horas, ou seja, 180 minutos, ou seja, dois jogos de futebol seguidos, mas sem golos, sem defesas para a fotografia, jogadas espectaculares, lances polémicos, apenas a colectiva e laboriosa quietude de um scriptorium medieval. Geometria Descritiva, o terror das vigilâncias, o exame que ninguém quer, que todos temem, o cobrador de fraque das vigilâncias que, sinistro, nos toca no ombro, quando sai a escala de serviço. Eu, pelo contrário, gosto do serviço de vigilância de exames e o de Geometria Descritiva apenas faz com que esteja ainda mais meia hora em absoluto e sereno silêncio, vendo o tempo passar em câmara lenta, vagaroso, tranquilo, como o correr da água numa velha clepsidra. Eu tive sempre um grande fascínio pelos velhos estilitas como o velho Simão, apropriadamente chamado Estilita. Claro que é uma grande parvoíce comparar as duas coisas mas também há algo na vigilância de um exame de Geometria Descritiva, onde não podemos falar nem ouvir, onde não podemos sair e onde o tempo estica como um elástico, que me lembra aquela quietude e solidão de quem paira sobre o mundo e o fremente quotidiano. A razão pela qual os professores detestam o serviço de exames é precisamente a mesma por que eu goste dele. Eu até gosto de ser professor e de ensinar mas chegar a esta altura do ano e poder estar apenas ali, mudo, como um monge, apenas para me aprender, é sempre uma maneira de terminar o ano lectivo numa espiritual beleza e harmonia. E se o destino está cheio de coincidências, não pequena será a de a Geometria Descritiva ter sido criada por um Monge. Monge de nome, não monge no sentido religioso, o que faz com que seja completamente irrelevante para exprimir o monástico prazer da minha vigilância. Até porque se ele não era monge, eu cá também não o sou. Mas que lá tem a sua graça, lá isso tem.