19 junho, 2017

CONTINENTE


«Nem sempre a Utopia foi uma ilha. Chamava-se outrora Abraxa e estava ligada ao continente; Utopos apoderou-se dela e deu-lhe o seu nome. Este conquistador teve génio bastante para humanizar uma população grosseira e selvagem e formar dela um povo que hoje ultrapassa em civilização todos os outros. Logo que pela vitória se tornou senhor do país, mandou cortar um istmo que o ligava ao continente, e a terra de Abraxa tornou-se deste modo a ilha da Utopia» Thomas More, A Utopia

Passagens como esta devem ter dado a volta à cabeça de muito boa e intencionada gente. A ideia de utopia está intrinsecamente ligada à ideia de ilha. Se não geograficamente, pelo menos simbolicamente. O muro de Berlim está todo nesta passagem de Thomas More assim como o enclausuramento de Portugal durante o salazarismo ou na actual Coreia do Norte. Apesar das diferenças, um traço comum: o desejo de criar artificialmente um tipo de humanidade de acordo com um projecto, preservando essa humanidade de nefastos contágios vindos do exterior que possam pôr em risco o sucesso desse projecto.

A história mais recente tem, felizmente, religado continentes que, durante anos, foram ilhas. Ora, um dos problemas do mundo actual já não é o de saber como reconstruir os istmos de outrora e, desse modo, fugir ao claustrofóbico pesadelo da ilha e do mare clausum. O grande problema é o mare liberum e a possibilidade que todos temos de estar em todo o lado e ao mesmo tempo. O mundo aberto e livre é bem mais difícil do que um mundo fechado no qual as pessoas vivem de acordo com alucinados projectos ideológicos. Num mundo fechado, perfeitamente fechado, todos sabemos o lugar que devemos ocupar, o Deus em que devemos acreditar ou estamos proibidos de acreditar, o que é o bem e o mal, o que representa ser feliz ou infeliz, ou o político que devemos admirar e seguir, ainda que sem ser no Twitter ou no Facebook.

E num mundo aberto? Como viver quando temos pela frente, não os contornos nítidos de uma ilha na qual ninguém se perde, mas uma imensa superfície continental na qual, como no deserto, nem sempre é fácil distinguir o norte do sul e o oeste do este? As cidades, os países, as culturas deixaram de ser ilhas. A partir de aqui, temos duas possibilidades. Ou fazemos como Utopos, e cortamos os istmos que nos ligam aos continentes, tentando desse modo cada cultura salvaguardar a sua identidade pura, ou então só temos mesmo que aprender a viver num continente comum no qual somos todos vizinhos. A última opção parece-me não só mais sensata como também inevitável.