22 junho, 2017

AS MOSCAS

Garry Winogrand

O Estado de Natureza enquanto estado de todos contra todos e no qual o mais forte anula o mais fraco, está longe de ser um estado de em que as pessoas se odeiam ferozmente, ou mais longe ainda de implicar um campo de batalha cheio de mortos e feridos espalhados pelo chão como em Austerlitz ou Estalinegrado. Mesmo esses não se odiavam, apenas sabiam que tinham de matar para não serem mortos. Bem disse Valéry que a guerra é um massacre entre pessoas que não se conhecem para proveito de pessoas que se conhecem mas não se massacram.

Do mesmo modo, como dirá Littell em As Benevolentes, que o bacilo de Koch não odeia a música de Pergolesi ou os textos de Kafka, ambos mortos por ele, e do mesmo modo que o médico que receita um antibiótico não odeia o bacilo, apenas deseja matá-lo, também o banqueiro ganancioso e o político corrupto não odeiam as milhares ou milhões de pessoas cujas vidas são prejudicadas com os seus actos ilícitos ou imorais. A vital necessidade de qualquer ser vivo aumentar a sua potência de agir é independente do amor e do ódio. O amor e o ódio implicam um conhecimento pessoal (um homem e uma mulher) ou abstracto (o racista, o terrorista que odeia cristãos ou o adepto do Benfica que odeia os do Porto). No Estado de Natureza, esse ódio não tem que existir pois o mais forte está apenas interessado no seu próprio bem e não no mal de outros que odeie. O mal dos outros é apenas um efeito secundário, uma consequência desagradável da perseguição do seu próprio bem.

A imoralidade económica, social e política é o resultado visível de uma doença narcísica que distrai a pessoa sobre si mesma, não de um conflito directo entre pessoas que se odeiam. Agora, os problemas de um país como Portugal, onde este Estado de Natureza se faz mais sentir do que em países mais evoluídos e civilizados, não se resolvem nos divãs dos psicanalistas. Resolvem-se com leis melhores. O problema é que as leis são feitas por pessoas e essas pessoas, em Portugal, chamam-se portugueses. E para esses poucos portugueses, todos os outros não passam de moscas que por aí esvoaçam e nas quais só verdadeiramente pensam quando os picam ou não os deixam ler tranquilamente o jornal.