08 maio, 2017

SELVAGENS E SENTIMENTAIS


As capas de hoje do Público e do Correio da Manhã formam uma estrutura geométrico-conceptual bastante interessante. A fotografia central do Correio da Manhã, em grande destaque, é dedicada à vitória do Benfica em Vila do Conde. No canto inferior esquerdo, quase despercebido, informa que Macron ganhou as presidenciais. A fotografia central do Público, em grande destaque, é dedicada à vitória de Macron nas presidenciais. No canto inferior esquerdo, quase despercebido, informa que o Benfica ganhou em Vila do Conde. 

Se um ser vivo inteligente e racional acabasse de chegar de outro planeta e a primeira coisa que visse fossem estas duas capas, iria ficar confuso sobre o sentido da realidade. Tal aconteceria por não saber que não se tratam apenas de dois jornais mas de dois jornais lidos por pessoas com interesses diferentes. Todavia, não estão condenadas a uma diferença radical. Muitos dos leitores do Público, ao irem ao futebol, transformam-se no que são os leitores do Correio da Manhã, tornando-se, como diria Javier Marías, selvagens e sentimentais. Os segundos, incluindo os leitores dos "Correios da Manhã" ingleses, alemães, italianos ou polacos, são mais desleais do que os primeiros. Quando se interessam por politica continuam a ser tão selvagens e sentimentais como o são num estádio de futebol. Tal pode ajudar a explicar a razão por que é perigoso o futebol mas também por que é a política ainda mais.