25 maio, 2017

ROTERDÃO


Uma pessoa prepara-se para comer a sopa, prova, diz que está quente e espera um pouco. Parece uma contradição, pois sendo suposto comer a sopa quente não faz sentido parar de comê-la por ser assim que está. Sabemos, porém, que dizer que a sopa está quente, significa estar demasiado quente para ser comida. Uma coisa é o sentido de "quente" associado à natureza da sopa, outra é quando adquire um sentido pragmático, significando o facto de não se poder comê-la, tratando-se, portanto, já não de um juízo descritivo mas normativo. Quando era criança, dizer que umas calças estavam rotas tinha os dois sentidos. Umas calças rotas eram umas calças rotas mas também era o mesmo que dizer que já não se poderiam usar. Pensei ontem nisto ao reparar em várias alunas na sala de aula com as calças rotas, algumas delas, mais do que rotas, com rasgões que são verdadeiras crateras. Não foi só ontem que descobri a moda das calças rota e rasgadas mas o facto de estarem a fazer um teste tornou-me mais ocioso e consequentemente, mais elucubrativo.

Para todas aquelas raparigas, o sentido físico, ou descritivo, de "roto", não só não está pragmaticamente associado a uma impossibilidade de uso como, bem pelo contrário, aumenta ainda mais tal possibilidade, uma vez que é por estarem rotas que desejam usá-las. Entretanto, dei comigo a pensar no que faria se me desse para ir para a escola também com calças rotas ou enormes crateras. Eu detesto calças rotas e não consigo imaginar-me com elas vestidas. Mas se gostasse? Para já, antecipo um enorme sucesso entre os alunos, transformando-me rapidamente em herói. Acontece que entre professores, funcionários, pais dos alunos (enfim, não todos, pelo que posso constatar) e sociedade em geral, a recepção não iria ser favorável. Porém, não haveria nada de errado nisso uma vez que o sentido de "roto" ou "rasgado" deixou de significar uma normativa impossibilidade de uso para passar a ser um conceito de moda com o respectivo sentido estético. E tanto assim é, que numa sala de aula coexistem alunos com calças rotas e sem calças rotas, não enquanto estados normativamente contraditórios mas apenas esteticamente distintos, tal como usar sapatilhas ou sapatos de vela. 

Um certo dia, entrou na sala um aluno com uma T-shirt que tinha umas letras garrafais a dizer "FUCK YOU", servindo de lírica legenda a uma mão cujo dedo do meio surgia epicamente erguido, talvez movido pelo poder sugestivo da palavra. Eu não disse nada mas admito que não me senti confortável ao vê-lo na minha aula com aquela T-shirt. Só no fim me ocorreu a ideia de que não deveria tê-lo deixado entrar na aula naquela condição mas também fui pudicamente assolado pelo desconforto de usar a minha autoridade num tempo em que a liberdade individual e uma espécie de ideologia juvenil tem um valor quase sagrado. Porém, muito diferente de um código de vestuário sem qualquer carga moralmente ofensiva, ainda que discutível, sendo o mesmo princípio válido para mim enquanto professor. Mas uma coisa são os princípios, seja ao nível da lógica, da ontologia ou da moral, outra é a realidade. E a realidade diz-me o seguinte: eu posso gostar de calças rotas, tenho todo o direito de gostar de calças rotas, de gostar apenas de pessoas com calças rotas e de só comprar calças aos meus filhos se forem rotas. Sei ainda que os alunos iriam ficar entusiasmados por me verem de calças rotas. Mas a escola, sendo uma instituição, tem os seus próprios códigos (que, aliás, não são estáticos), os quais não se compadecem com a liberdade e o gosto pessoal de cada um dos seus elementos, o que me obrigaria a abdicar da minha liberdade para respeitar aquilo que são regras básicas do senso comum. Mas se a escola é uma instituição para quem lá trabalha, não deixa também de ser uma instituição para quem lá estuda, querendo isto dizer que se não faz sentido os professores irem trabalhar de calças rotas e rasgadas, também não o deveria fazer para quem vai estudar. Agora, que se fala tanto na ideia de "comunidade educativa" (conceito que, confesso, me dá voltas ao estômago), tal igualdade comunitária deveria ser levada mesmo a sério, impedindo de entrar na escola alunos que se vestem de uma maneira que não é permitida em praticamente todos os locais de trabalho.