17 maio, 2017

O PODER DA REALIDADE



"When things move, I get interested" Garry Winogrand

Num excelente livro sobre Espinosa, o filósofo francês Gilles Deleuze apresenta-o como alguém que propõe um novo modelo: o corpo. "Não se sabe o que pode um corpo", eis a famosa frase da Ética, obra onde o corpo é pensado e valorizado de um modo como até então ainda não se tinha visto. E remata com Nietszche para mostrar todo um território que, embora debaixo dos nossos olhos, está ainda por explorar e valorizar: "Espantamo-nos diante da consciência, mas o que é surpreendente é, acima de tudo, o corpo". E pronto, chega de citações.

Estive a rever as fotografias de Garry Winogrand e sem querer lembrei-me de Espinosa. Neste caso, não para dizer que "não se sabe o que pode um corpo" mas para dizer que "não se sabe o que pode a realidade". Winogrand é um fotógrafo da rua, mas não da mesma rua, e só para dar alguns exemplos, de Doisneau ou Elliot Erwitt, irmãos na construção de um humor encenado, de Lewis Hine ou Dorothea Lange, Weegee, Walker Evans, fotógrafos que vão à procura de um tipo específico de actores sociais, ou de Cartier Bresson, Brassäi ou do nosso Gérard Castello Lopes, em cujas fotografias de rua encontramos, para além do "instante decisivo", uma indisfarçável depuração estética. É verdade que existe "instante decisivo" em Winogrand mas trata-se de um "instante decisivo"mais humilde, no sentido em que se dirige para um domínio ainda mais sub-atómico e invisível do real, um domínio que aparentemente não existe para ser visto.

Uma reacção imediata perante a sua fotografia poderá ser "Caramba, mas que raio há aqui de tão especial e digno de ser visto?", reacção normal por vermos apenas o que estamos habituados a ver, sendo escandalosamente familiares. Dará até vontade de dizer a clássica frase perante a simplicidade de muitas pinturas modernas: "Grande coisa, isto também eu fazia!". Mas as coisas são um pouquinho mais complicadas. Se qualquer pessoa sair para rua e começar a disparar a torto e direito, o resultado não será muito provavelmente interessante pois não basta fotografar o que aparece espontaneamente para que tal aconteça. Para que o "instante decisivo" aconteça, é precisa uma feliz e única conjugação de elementos, ainda que simples e aparentemente desinteressantes. Diz Winogrand que se interessa por tudo o que mexe. Mas há mexer e mexer. No seu caso, trata-se de registar momentos únicos, num espaço e tempos certos, impedindo a sua submersão na espuma dos dias. O que pode a realidade? Nunca se sabe o que pode a realidade. Julgamos conhecê-la mas estamos já tão viciados nela que deixamos de a ver. E o que o fotógrafo faz é precisamente obrigar-nos a ver o que já deixámos de ver e a fazer-nos sentir ainda espanto com o que pode a realidade, como seu infinito fluxo que torna inesgotável o seu poder.