21 maio, 2017

O PARADIGMA ENCONTRADO

Richard Avedon

Diz-se que a Europa está velha e cansada, que perdeu a capacidade de sonhar, de se reinventar, de pensar utopicamente, sentindo-se no ar um "eclipse do messianismo", tanto religioso como político, que a leva a cair num cinzento torpor. Um bocadinho assim como aqueles velhos casais já sem nada para fazer ou dizer e que vão diariamente assistindo à sua própria decadência. Que a Europa está velha, disso não há qualquer dúvida, não devendo, porém, ser isso motivo de vergonha mas de orgulho. Já cansada me parece uma constatação francamente exagerada. Onde muitos vêem cansaço, rotina, apatia, ruas sem saída, eu consigo ver um enorme sucesso, a conquista de grandes resultados. Sonhar? Mas sonhar com quê? Com a democracia? Mas nós já temos a democracia. Com uma sociedade sem escravatura? Sem operários e camponeses miseráveis a viverem e bairros imundos? Com educação e saúde para todos? Com liberdade religiosa, de imprensa ou de opinião? Com a emancipação da mulher? Com direitos para as crianças e serem protegidas por lei? Com uma cultura acessível para todos, seja por decreto-lei ou pelo próprio desenvolvimento da tecnologia? Com sindicatos como parceiros sociais? Com um estado de Direito? Mas como sonhar com tudo isso se abrimos os olhos para a Europa e vemos tudo isso. Isso e muito mais coisas que ainda há 200 anos eram, então sim, do domínio dos sonhos mais cor-de-rosa.

O que acontece com a Europa (ou o chamado "Mundo Ocidental") é o seguinte. Nós descobrimos o paradigma certo. Não se trata de um acaso histórico, de uma moda, de um devaneio ideológico-filosófico em regime experimental, mas do modelo mais justo, mais progressista e mais resistente às adversidades. Não significa isto que esteja tudo bem com a nossa estimada democracia liberal, que não haja problemas para resolver e que, assim sendo, fecha-se a loja pois a história chegou ao fim. Em primeiro lugar, a história nunca chegará ao fim pois onde houver dois seres humanos (que não precisam de ser um senhor e um escravo), a história irá continuar e sempre de modo imprevisível. Depois, mesmo havendo erros, problemas por resolver, anomalias e perplexidades várias, parece ser dentro deste paradigma que queremos continuar a viver e encontrar as soluções, ainda que num país como o Brasil.

Já foram feitas revoluções para implementar novos paradigmas dentro dos quais se pudesse erradicar definitivamente os problemas, construindo uma sociedade acima do meramente possível e do princípio da realidade. Sim, foram, mas não vale a pena lembrar a desgraça que foi.  A nossa «política normal», pelo contrário, é mais humilde, limitada e geneticamente imperfeita, ao contrário de ideologias eugénicas que visavam sociedades perfeitas. Mas é a única com efectivo poder para gerir a realidade em função dos seus condicionalismos. Não é um projecto romântico? Não, não é. Excita torrentes e ímpetos ideológicos em libidinosas consciências? Também não. Faz-nos sentir no meio de uma daquelas extáticas subidas ao céu da pintura barroca? Nem pensar. Até por isso deveríamos não falar em cansaço, sentindo antes, em vez disso, uma orgulhosa, embora prudente serenidade. Os outros, esses sim, cansam-se depressa, nascendo e morrendo velozmente no meio dos seus destroços, enquanto a velha Europa, com ou sem  bengala, ou até mesmo com alguns tropeções que podem originar entorses. lá vai dando os seus passeios de domingo, sem ter de se preocupar muito com o que vai acontecer na segunda-feira de manhã.