11 maio, 2017

O CHAPÉU DE CHUVA


Ontem telefonou-me o meu filho a pedir para ir buscá-lo à biblioteca, pois tinham-lhe roubado o chapéu de chuva e estava a chover torrencialmente. Pronto, não há crise, não passa de um chapéu, tive de sair de casa sem estar à espera mas é coisa que já lá vai. 

Já lá vai mas continua a interessar-me o que acontece na cabeça de uma pessoa no preciso momento em que está a roubar o chapéu de chuva de outra. O motivo não é difícil de perceber. Está a chover torrencialmente, a pessoa deseja (ou precisa mesmo) de sair da biblioteca, sabendo que, sem o chapéu de chuva irá ficar ensopada. Olha então para o recipiente repleto de chapéus de chuva que se encontra à saída e resolve pegar num para ir à sua vida, satisfazendo assim o seu desejo. Agora, há duas possibilidades. A primeira, é no momento em que rouba o chapéu estar tão concentrado em satisfazer o seu desejo que nem se apercebe de que por causa disso uma outra pessoa irá ficar sem poder satisfazer o seu, para já não falar no facto de o chapéu ser propriedade desta. A segunda, é ter consciência disso no momento em que rouba o chapéu.

Se for o caso desta segunda, o mais certo é ter acontecido o seguinte: vê uma multidão de chapéus no recipiente, sabe que os chapéus pertencem às pessoas com quem ele partilhou o mesmo espaço mas não relaciona o chapéu com a pessoa à qual pertence. Sabe que faz mal mas não sabe a quem está a fazer mal, o que facilita bastante a sua acção. Não significa isto que não ver o rosto da pessoa a quem se faz mal seja condição necessária para o fazer. As pessoas que apontam uma faca a outras para lhes exigir a carteira ou os carteiristas que no autocarro metem a mão no bolso das vítimas, sabem perfeitamente quem estão a roubar e não é por isso que deixam de o fazer. Quando o mal tem de se soltar, solta-se em qualquer circunstância e de qualquer maneira. Mas também é verdade que pessoas haverá que também só fazem o mal porque a vítima não passa de uma abstracção. Não meto as mãos no fogo por ninguém, mas sei que haverá pessoas que não iriam roubar o chapéu a alguém que tivesse estado sentado numa mesa em frente da sua durante várias horas, mas já o farão se o chapéu não tiver rosto, nome, voz, em suma, uma identidade.

Diz Adam Smith [The Theory of Moral Sentiments] que não dormiríamos toda a noite se soubéssemos que no dia seguinte iríamos perder o dedo mindinho . Porém, se houvesse um terramoto na China que engolisse 100 milhões de chineses, ficaríamos chocados mas, passado o choque, não seria coisa que nos tirasse o sono. O nosso dedo é o nosso dedo, 100 milhões de chineses são 100 milhões de chineses. A minha dor é real, vívida e afecta o meu bem-estar, enquanto 100 milhões de chineses não passam de uma vaga abstracção. Daí a pertinência do género de exercício feito por Balzac no Père Goriot ou por Eça em A Relíquia: se soubermos que, neste momento, a morte de um qualquer chinês lá na longínqua China nos iria resolver uma forte dor no dedo ou permitir ganhar milhões de euros, iríamos aceitá-lo? Muitas pessoas normais, isto é, pessoas incapazes de o fazer se vissem fotografias ou conhecessem pessoalmente o chinês que iria morrer, iriam aceitar. Sim, a morte de uma pessoa é uma tragédia mas a morte de milhões não passa de estatística. Ainda assim, há quem não se preocupe particularmente com essa distinção, desde que a tragédia de quem morre sirva os seus interesses e desejos. Porém, a maioria da humanidade é antes potencial cliente do perfil anterior. No caso de ontem, na biblioteca de Torres Novas, felizmente tratou-se apenas de um chapéu de chuva.