03 maio, 2017

JINGLE ALL THE WAY


Há muito que sou uma vítima de earworms, essa repetição compulsiva de frases musicais que invade por vezes as nossas desprevenidas cabeças. Pensando assim de repente, a minha pessoal contaminação vai desde a voz do Joe Dassin a cantar o refrão de Champs Élysées aos primeiros acordes da 4ª Sinfonia de Brahms ou ao viciante ostinato da 7ª Sinfonia de Chostakovitch, passando pelo Kashmir dos Led Zeppelin ou One of These Days dos Pink Floyd. Por causa da complexidade neurológica e cognitiva do fenómeno, Oliver Sack prefere chamar-lhes brainworms. Percebo o sentido mas digo já que não me parece boa ideia. Se reduzirmos os earworms a brainworms, como é que vamos poder depois classificar o impacto mental de tantas ideias que não passam de uma repetição automática e compulsiva de lugares comuns, soletradas mecanicamente como frases musicais? Tal como na música, onde o poder sonoro da frase musical se cola à mente como uma lapa à rocha, também o inebriante e hipnótico poder das ideias a elas nos prende com grossas e rijas cordas, ideias que têm o mesmo valor de jingles publicitários que já não abandonam as nossas permeáveis cabeças. Daí considerar útil a distinção entre earworms e brainworms. Pode ser desagradável querermo-nos libertar em vão de um som, mas é inofensivo. Já com ideias coladas às paredes cariadas dos nossos pensamentos pode ser mais pernicioso. O software cerebral é frágil e o que não falta neste mundo são hackers com sofisticados vírus para nos infectar.