18 maio, 2017

CEGUEIRA LOGOCÊNTRICA

Alfredo Cunha

Nunca um católico me provocou, me criticou ou me tentou converter, mostrando qualquer tipo de superioridade face ao meu ateísmo. Dizendo isto, talvez pareça estranho eu vir agora dizer que compreendo aqueles que ridicularizam a fé e o sentimento religioso, sobretudo o de cariz mais popular. Mas compreendo e por duas razões. Uma delas é eu próprio já ter feito o mesmo. A segunda, ligada à primeira, por facilmente se cair na tentação de um sentimento de superioridade positivista, sustentado numa ligação entre a experiência e razão, a qual ilumina o mundo, tanto físico como humano, em oposição às trevas da crença, da superstição, da ignorância.

Compreendo mas não posso aceitar. É verdade que continuo a não perceber a fé e a relação com o sobrenatural mas percebo o seu valor e utilidade para milhões de pessoas, mesmo que vá contra a minha noção de verdade, já para não falar na liberdade de cada um em acreditar no que bem entender. Daí a minha visão crítica dos que criticam e atacam manifestações de fé, seja cristã, seja mais especificamente católica ou mais especificamente ainda mariana, ao mesmo tempo que são incapazes de atacar manifestações de fé em culturas sem qualquer ligação com a nossa. Alguém imagina um desses críticos, tentando, algures na Amazónia, no meio de uma tribo africana ou até mesmo numa viagem à Índia, Marrocos ou Irão, demover as pessoas das suas crenças e rituais? Não só não o fará como até poderá encarar com algum encanto etnográfico tais manifestações e tentando respeitar a sua cultura.

Como explicar então esta tolerância e compreensão face a tais manifestações de "ignorância" e "obscurantismo"? Ora, parecendo bonitas e nobres, não deixam de ser perversas. Nós toleramos a crença ou o ritual de um índio da Amazónia e não aceitamos a crença ou o ritual de um católico porque a nossa cultura é sentida como superior, encarando-se como mácula tudo o que ponha em causa tal superioridade. Já para o índio da Amazónia devemos olhar como se olha para uma criança que acredita no Pai Natal ou em fadas, aceitando-o com uma condescendência paternalista. Uma cegueira logocêntrica que não deixa ver o facto de haver fragilidades universais que, independentemente da cultura, estão na origem do mesmo tipo de crenças e necessidades às quais todos nós temos direito.