10 maio, 2017

A BLASFÉMIA


André Kertész

Blasfémia é coisa grave, sendo isso compreensível até para um ateu do descristianizado mundo ocidental que pode não se sentir ofendido mas compreende o facto de haver quem se sinta. Difícil de compreender já será uma acusação de blasfémia como esta, só por alguém considerar errada a interpretação de um versículo do Alcorão. Difícil, porque nos habituámos a ver o erro como estado normal de quem arrisca interpretar, explicar, pensar, entendidos como exercícios especulativos.

Uma pessoa defende a tese de que todos os cisnes são brancos. A partir daí, sempre que vê mais um cisne branco convence-se ainda mais que se trata de uma tese verdadeira. Observar o mundo torna-se assim num exercício de procura de mais e mais cisnes brancos que a confirmem. Vejamos agora outra pessoa que defende a mesma tese: todos os cisnes são brancos. Porém, sabe que observar mais um, dez, cem ou mil cisnes brancos não dá quaisquer garantias de que a tese seja verdadeira. Algures, poderão estar cisnes não brancos dos quais não há ainda registo. O que faz ele, então? Em vez de ir à procura de mais um cisne branco, que nada garante, vai fazer o possível para encontrar o cisne não branco, o qual, se for encontrado, dá-nos uma absoluta garantia: estávamos errados. Trata-se de um exercício auto-destrutivo ou masoquista? À primeira vista parece que sim, pois de acordo com o senso comum e uma intuição mais básica, quando alguém acredita numa coisa faz os possíveis para mostrar que tem razão. Neste caso, faz-se o contrário, a pessoa acredita que todos os cisnes são brancos mas depois vai tentar provar que está errado. A vantagem é inegável para quem procura a verdade: fazer com que as nossas ideias sejam postas à prova, fiscalizadas, confrontadas com critérios objectivos que estão acima das nossas crenças. Se estiverem erradas, deitamo-las fora, devendo nós ficar satisfeitos por nos livrarmos delas. Se resistirem às diferentes tentativas de falsificação isso pode ser um bom indicador, devendo assim continuar em cima da mesa, enquanto nada surja que as refute.

O que acabo de dizer é uma síntese muito rápida e elementar do falsificacionismo de Karl Popper, uma proposta de metodologia científica e não a identidade de uma cultura. Seria, pois, uma patetice dizer que este é o registo mais comum da nossa cultura ocidental. Mas é nesta mesma cultura ocidental, começando na Grécia Antiga, passando pela universidade medieval (muito mais estimulante do que nos quiseram convencer), continuando no nascimento da ciência moderna, dos diferentes iluminismos (vá, esqueçamos Robespierre, Marat, Lenine, Mao Tsé Tung ou Maria de Lurdes Rodrigues, esses filhos espúrios das Luzes) e mais tarde do pensamento liberal, que vamos encontrar a arte da discussão, do diálogo, do pensamento livre, de uma genuína procura da verdade, a qual inclui o erro como momento inevitável e até estimulante. Nós, europeus, somos filhos desta tradição, daí a nossa enorme estranheza perante aquela bárbara (tanto no velho sentido romano como no actual) acusação de blasfémia.