22 maio, 2017

A ADVERSIDADE DOS PRELIMINARES


Estou com um problema que passo a explicar. Eu nunca gostei dos romances de José Saramago. Tentei ler vários, mas só com dois deles consegui chegar ao fim e com grande esforço e resistência. Acontece que, após mais uma tentativa, li recentemente um outro do qual não só gostei como gostei mesmo muito. Tanto, que fiquei logo com vontade de o reler e de o inscrever na lista dos "Meus livros". O problema agora é este: Saramago é umas das minhas literárias birras de estimação mas escreveu um dos livros que mais gostei de ler. Doravante, como posso dizer que não gosto de Saramago? Mas também como dizer que gosto quando, excepto aquele, só consegui terminar dois livros e mesmo assim foi o que foi?

Imaginemos agora uma pessoa que adora os Beatles, tem os seus discos todos e até posters no quarto. Entretanto, perguntando-lhe qual a sua canção preferida do grupo inglês, diz ser o Helter Skelter, aquela que o levou a apaixonar-se pelo grupo, a que ouve mais vezes, a que escolheria para levar para a ilha deserta num MP3 só com espaço para uma canção. Ora, quando pensamos nos Beatles não é propriamente essa canção que surge como exemplo paradigmático da sua música. Porém, é tão legitimamente parte dos Fab Four, como Yesterday, Hey Jude, Penny Lane ou Let it Be. Só mais uma situação: o meu carro preferido é o Porsche 911 Carrera e o roxo uma das cores com que mais embirro. Ora, como irei reagir se vir o meu carro preferido pintado de roxo? Gosto ou não gosto do carro? O que acontece no meu espírito é "Gosto, mas,,," ou então "Não gosto, mas...".

O imbróglio surge porque a realidade tem uma natureza intrinsecamente adversativa (há sempre um "mas") que deveria levar-nos a definir as coisas por propriedades, mais centrados em acidentes particulares do que em necessárias generalidades, mas somos constrangidos a pensar com etiquetas dicotómicas como "gosto/não gosto", "bom/mau", "bonito/feio", "útil/inútil. Porquê? Porque há 2500 anos que somos gregos, há 2500 anos que vamos alimentando a nossa necessidade de ordem, unidade e coerência e também sentido prático na maneira de percepcionar as coisas. Imaginemos um homem e uma mulher durante um jantar em que é suposto seduzirem-se por entre as velas acesas. Chegado o momento de falar de literatura para mostrarem que são muito cultos e inteligentes, ela pergunta com ar meio lânguido, meio desafiador: "E... Saramago? Gosta de Saramago?" Ora, se ele responder, entre tosses, "Bem...pois... sim...enfim...quer dizer...por um lado...mas por outro..." o mais certo é os níveis de estrogénio e progesterona da interlocutora irem por aí abaixo, tendo que elegantemente disfarçar um primeiro bocejo. Em tudo, as pessoas querem, exigem, precisam de um sim ou não inequívoco, de auto-estradas mentais que lhes dêem segurança e não de atalhos e veredas onde se podem perder.

Diz Umberto Eco, por acaso não num livro chamado Kant e o Ornitorrinco mas num outro chamado A Vertigem das Listas, que pensar por propriedades é próprio de uma cultura primitiva sem capacidade de elaborar abstracções e hierarquias de géneros e espécies ou então de uma cultura muito à frente que goste de pôr em causa  definições dadas como garantidas. Ora, nós nem somos primitivos, presos a uma lógica do concreto, com os olhos dispersos no meio da multiplicidade das coisas, nem gostamos de andar a baralhar definições ou a virar de pernas para o ar a nossa rígida estrutura mental. Gostamos de simplificar, de tornar tudo objectivo e rápido. No fundo, também somos movidos por uma espécie de testosterona ou progesterona mental que nos faz olhar para o pensamento adversativo como um excesso de preliminares sem fim à vista.