18 abril, 2017

TEMPO LIVRE



É bastante curioso o modo como o tempo condiciona a percepção de tantas coisas. Por exemplo, o facto de um videoclip musical ter quatro minutos, um anúncio publicitário durar cerca de um minuto e um filme entre os 90 e os 150 minutos.Quando se vai passar uma tarde a um museu a ideia é vê-lo todo ou quase todo, o que pode dar uma média de segundos por quadro, ou algo se for mais conhecido ou porque chamou a atenção. Ora, por que razão não se vai a um museu só para ver dois ou três quadros? Ou a um cinema para ver um filme que dure apenas 20 minutos? Isso não acontece porque não fomos habituados a ver uma pintura, ou uma fotografia como quem vê um filme, ou seja, estar duas horas a olhar para elas, ainda que tal se pudesse justificar, ou porque fomos educados a ver os filmes com base numa certa duração. Mas se podemos dar 7 euros por um pequeno livro que se lê num instante, por que razão não os podemos dar para ir a um cinema ver um filme de vinte minutos? Aliás, com a falta de tempo, isso até tornaria mais fácil uma ida ao cinema, ocupando uma menor parte do precioso tempo.

Em sentido contrário, também não estamos preparados para ver um filme de cinco horas num sábado à tarde mesmo que não se tenha mais nada de especial para fazer, pois torna-se demasiado longo para os nossos padrões. Quando eu era garoto e fiz a minha educação musical tive uma fase em que ouvi bastante Rock Progressivo. Hoje não tenho paciência para o ouvir mas reconheço a sua importância no modo como influenciou o meu sentido de duração musical que, mais tarde, viria a revelar-se importante na relação com outros géneros musicais, ajudando na altura a superar a minha habituação à lógica temporal do single, que era então o modelo prevalecente.

Kant fala do tempo como elemento meramente formal na nossa relação com os objectos sensíveis. Sim, claro que é formal. Porém, sendo formal, não consigo deixar de o sentir como uma coisa física, uma espécie de camisa de forças que se aperta ou alarga conforme as circunstâncias. Tal como uma dor de cabeça, que também não tem cor, cheiro, sabor ou textura, mas condiciona a nossa relação com um texto, um filme, uma pintura ou uma música, também o tempo, sendo formal, pode ser sentido por nós como realidade física constrigente e cuja dimensão pode ser regulada, alterada, corrigida, condicionando o prazer ou desprazer que sentimos perante um objecto que seja alvo da nossa percepção. Conseguir superar essa barreira do tempo, seja para mais, por exemplo, ver um filme longo, seja para menos, ir ao museu durante apenas 15 minutos para ver um quadro, aumentaria sem dúvida a nossa liberdade na relação que mantemos com as coisas, submetendo estas a uma estrutura rítmica que seja nossa e não àquela que nos querem impor.