02 abril, 2017

O FRUTO PERMITIDO

Lucas Cranach

Contrariamente ao efabulado pela tradição, não há registo de maçã ou macieira na Queda Original. É longa a passagem onde se descreve a mais famosa queda da história, sobretudo nestes tempos em que mais de vinte centímetros de texto já provoca borbulhas no hemisfério esquerdo do cérebro, mas vale a pena uma ida com o cântaro à fonte para não ficarem dúvidas sobre a enigmática identidade do célebre (ou mediático, ou viral, como agora se diz) fruto do nosso genésico quintal:

A serpente, o mais estatuto de todos os animais que o Senhor Deus fizera, disse à mulher: 'É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvores do jardim?' A mulher respondeu-lhe:'Podemos comer o fruto das árvores do jardim, mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: 'Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis'. A serpente retorquiu à mulher: 'Não, não morrereis; mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal'.
Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto,  e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele a seu marido, que estava junto dela, e ele também comeu, Então, abriram-se os olhos aos dois e, reconhecendo que estavam nus,  prenderam folhas de figueira umas às outras e colocaram-nas como se fosse cinturões, à volta dos rins.
Nessa altura, aperceberam-se de que o Senhor Deus percorria o jardim pela frescura do entardecer, e o homem e a sua mulher logo se esconderam do Senhor Deus, por entre o arvoredo do jardim. Mas o Senhor chamou o homem e disse-lhe:'Onde estás?' Ele respondeu:'Ouvi o ruído dos Teus passos no jardim, e, cheio de medo, porque estou nu, escondi-me'. O Senhor Deus perguntou:'Quem te disse que estás nu? Comeste, porventura algum dos frutos da árvore da qual te proibi comer?' O homem respondeu:'A mulher, que trouxeste para junto de mim, ofereceu-me o fruto e eu comi-o'. O Senhor Deus perguntou à mulher:'Porque fizeste isso?'A mulher respondeu:'A serpente enganou-me e eu comi'.

A minha questão agora é a seguinte: por que não foi Deus claro e inequívoco na indicação da árvore, de modo a permitir à humanidade ficar com uma exacta noção do fruto que separa o caminho do bem e do mal? Pronto, se fosse uma maçã ficaria a maçã, se tivesse de ser a pêra, ou o figo (a rapidez com que se servem das suas folhas pode ser uma boa pista), ou a banana, ou o melão, ou o tomate, ou o pêssego, enfim, o doce e suculento dióspiro, era esse que ficava, ficando o assunto arrumado. Ora, Deus não foi claro, simplesmente porque não o quis ser.  No Decálogo, quando diz "Não Roubarás", isto é tão óbvio como dois mais dois serem quatro ou as galinhas porem ovos. Então por que motivo não se passou o mesmo com a árvore no meio do jardim? Sabemos que no meio está a virtude, o problema agora é saber o que está no meio. Dir-se-á que Deus foi caprichoso, nada, aliás, que surpreenda, vindo de Quem vem. Porém, fascinado que sou pelos mistérios e encantos da Teologia, arrisco dizer que há uma dupla intenção divina nesta ambiguidade, sendo uma delas teórica e a outra prática.

Comecemos pela teórica. Sendo certamente Deus um apaixonado pela Idade Média, alexandrina época na qual, sendo o seu centro, se sente verdadeiramente em casa, e que está para Ele como o Renascimento para as joviais ninfas ou o século XIX para poetas taciturnos e tuberculosos, estará já aqui a preparar a distinção entre o que virão a ser os futuros Trivium e Quadrivium, aos quais deve tanto a Cultura Ocidental, também a Sua preferida pois amor com amor se paga. Se quisermos ir mais longe, estará já mesmo a marcar a Sua posição no que virá a ser a diferença radical entre problemas filosóficos e problemas científicos. Sabemos que o limão e a laranja são citrinos, que a maçã tem 52 calorias por cada 100 gramas, que a banana é rica em potássio. Pronto, isto é científico, resultante de uma saber empírico e experimental. Agora, uma coisa é sabermos tudo o que há para saber sobre frutos, outra coisa é saber qual a árvore ou o fruto do bem e do mal. Claro que Deus não nos iria deixar perdidos num mar alto de ignorância e inconsciência, daí o Decálogo como exemplo de um bote de salvação. De qualquer modo, por muito elevado que seja o desenvolvimento tecnológico da humanidade, por muito sofisticadas que sejam as leis formuladas matematicamente, nunca teremos acesso experimental e empírico ao que verdadeiramente se passou naquele genésico mas também tão desfrutuoso dia.

Claro que teria de haver uma consequência prática disto, a qual me parece óbvia. Costuma-se dizer que se dá com uma mão para se tirar com a outra. A lógica disto vai no sentido de começar pelo positivo para terminar com um oposto negativo. Já no caso bíblico parece-me acontecer o contrário. Deus, autoritário e assumindo uma veemente paternidade, começa por marcar o seu território, dizendo que esta coisa de ser homem não pode ser o mesmo que ser um cavalo, uma carpa, uma borboleta ou uma cegonha. Não, somos inteligentes e racionais, feitos à imagem e semelhança do Criador e já na altura almoços grátis era coisa que não havia. Eis, pois, o momento em que Deus nos tira a candura da inconsciência, a paradisíaca inocência, o prazer da acção pura. Há uma árvore, há um fruto proibido, temos, pois, de aprender a viver com isso e os nossos pais pagaram bem cara a tentação de serem tão livres como o cavalo, a carpa, a borboleta ou a cegonha. Porém, ao não ficar registado o nome do fruto, porque Deus não quis que ficasse registado, nós, os que já nascemos a leste do paraíso, e tirando aquilo que é mais óbvio como o "Não Matarás", ficaremos sempre na dúvida sobre o que é verdadeiramente bom ou mau. Sentiremos assim o peso da incerteza quando, de manhã, comermos um sumarento pêssego. Pensaremos "Será este o fruto e estarei a pecar?". Entretanto, à tarde, com a aveludada carne de um dióspiro a escorrer pelas comissuras labiais pensaremos "Ou será antes este?" Todavia, à noite, com a amanteigada consistência de uma banana a desfazer-se no calor da boca, a dúvida atingirá o seu ponto supremo e mais inquietante.

Em suma, perdemos a liberdade, a espontaneidade, a irresponsabilidade do animal. O fruto existe e por isso sabemos que não podemos arriscar tudo, comendo o que quisermos e a quantidade que quisermos. Há, pois, limites e precauções a tomar. Mas também sabemos que, não sendo clara a indicação do fruto, nada nos obriga a prescindir de qualquer um deles, sem termos de ficar presos à camisa de forças da culpa. Somos e não somos livres, somos e não somos racionais, somos e não somos totalmente conscientes do que fazemos, em simultâneo. Ser humano sempre foi assim e é assim que irá continuar a ser. Bom proveito.