11 abril, 2017

O CALENDÁRIO



Estas duas gravuras do século XVI são irmãs siamesas. A primeira é de Richard Verstegan que, numa obra chamada O Teatro das Crueldades dos Heréticos do Nosso Tempo, deixa um registo da violência atroz dos protestantes sobre os católicos, neste caso, em Nîmes, e onde se poder ver um capitão protestante com um colar feito de orelhas de padres, um desses padres a quem foram cortadas as orelhas e o nariz, um padre morto e cujas entranhas vão ser misturadas com aveia para alimentar os cavalos. A segunda é de Jean Perrisin, que foi incumbido da mesma tarefa, apenas trocando a ordem das vítimas e algozes, vendo-se agora protestantes a serem massacrados por católicos.

Resolvi trazer estas gravuras, como poderia trazer uma outra relativa ao tristemente célebre massacre de Lisboa de 1506, por causa de uma questão que por aí anda a propósito do terrorismo islâmico: foi o Islão que se tornou violento ou antes a violência, latente ou manifesta, de muitos jovens muçulmanos, que se islamizou? Ora bem, o Islão não é violento nem se tornou violento. Dir-se-á haver passagens no Alcorão que tornam esta religião propícia à violência que tem deixado a sua marca de terror. Sim, há, só que influenciam tanto um agricultor marroquino, uma professora turca, um operário egípcio ou um comerciante sírio, como as passagens violentas do nosso Antigo Testamento um agricultor português, uma professora búlgara, um operário inglês ou um comerciante norueguês, todos eles cristãos. Uma religião é aquilo que as pessoas querem que seja e enquanto pessoas normais fazem dela uma experiência pessoal e social normal, pessoas com perfis desviantes, fazem dela uma experiência desviante sem que aquela tenha disso alguma culpa, tal como o futebol não a tem por haver hordas fanáticas que combatem em dia de Rio Tinto-Canelas, no estádio das Termópilas.

A violência é apenas uma entre muitas disposições naturais do ser humano e muitos são os seus rostos. Há a gratuita ou caprichosa enquanto desordem grave do foro psiquiátrico. Há uma violência momentânea que pode levar uma pessoa não violenta a sê-lo em circunstâncias excepcionais. Há pessoas intrinsecamente violentas e a quem basta um insignificante rastilho para o mostrar. Finalmente, existe uma violência motivada por causas, levando a que pessoas que podem não o ser nas suas vidas pessoais, sendo até dóceis e afectivas, e por crerem ferozmente numa causa pela qual desejam lutar, são capazes de todos os meios para atingir os seus fins. Falo de causas no seu sentido mais amplo, podendo incluir causas políticas, ideológicas, religiosas, ou até desportivas. Neste sentido, não há nenhuma causa que esteja imune a manifestações de violência, incluindo, como já vimos, o próprio cristianismo, uma religião do amor, da caridade, da compaixão.

O que está a acontecer com o terrorismo islâmico é uma mistura dos dois últimos tipos de violência, separadas ou associadas. Temos, por um lado, pessoas que não são pessoalmente violentas mas que, ao serviço de uma causa, se tornaram cirúrgica e racionalmente violentas, explicando a necessidade e bondade dessa violência com o rigor e clarividência argumentativa de um silogismo aristotélico. Fazem exactamente o mesmo que muitos católicos e protestantes do século XVI, revolucionários franceses do século XVIII, anarquistas do século XIX, ou já no século XX, patriotas sérvios, comunistas, republicanos e monárquicos portugueses, republicanos e falangistas espanhóis, nazis, revolucionários portugueses das FP-25, alemães da RAF, italianos das BV, independentistas bascos ou irlandeses. Por outro lado, temos pessoas que já por si são violentas, com um perfil de marginalidade e delinquência e que aplicam essa violência ao serviço de uma causa que veio dar um sentido metafísico e identitário às suas vidas, tantas vezes com grande falta dele.

Haverá um antídoto para este tipo de violência? Há, e não passa por acabar com as religiões, as ideologias, os países, o desporto: uma disposição céptica em relação às suas próprias crenças. Ser céptico não significa duvidar de tudo, deixar de ter crenças, deixar de agir porque em nada se acredita. Um cepticismo moderado traduz-se numa modéstia militante que faz com que nada seja dado por garantido, onde as crenças existem mas mantendo-se sempre uma atitude prudente e provisória em relação a elas. Pode-se acreditar em X mas mantendo sempre aberta a possibilidade dessa crença deixar de o ser por podermos estar errados, dizendo "parece-me que" em vez de "Sei que". Ou ainda acreditar em X mas também não fazer de X uma questão de vida ou de morte, de tudo ou nada, dando-lhe apenas uma importância relativa, como diria um estóico romano como Séneca. Uma pessoa pode acreditar ser melhor a república ou a monarquia, um estado mais liberal ou um estado mais social, o catolicismo ou o protestantismo, ou até acreditar que o seu país é maravilhoso mas não ter de matar ou de morrer por causa disso pois a vida e outros valores estão acima disso.

Infelizmente, não se trata de um antídoto que possa ser receitado por um médico para ser tomado três vezes ao dia durante um mês para tornar a pessoa imune a uma violência associada a causas. Não podemos chegar agora ao Iraque, à Síria ou às periferias de grandes cidades europeias onde milhares de jovens estão disponíveis para matar, para fazer uma campanha de sensibilização céptica. O antídoto é sobretudo histórico e cultural. No mundo ocidental, a proclamada morte de Deus (sintomático este título na capa do Correio da Manhã de hoje:" SEMANA SANTA-Páscoa leva milhares a correr para as praias") e a relativização e desmistificação de grandes modelos ideológicos, sociais e políticos, tantas vezes criticadas por estarem na origem de uma falta de rumo e de sentido, têm sido um excelente antídoto. Se, entretanto, coisas horríveis de natureza social e política se fizeram no século XX, em países cristãos como a Alemanha, URSS, Angola, Moçambique, Chile, Argentina ou Bósnia, foi precisamente pelo poder de sedução de alguns desses modelos. Já a religião tornou-se um exemplo, ao que parece definitivo, de inoculação, no mundo ocidental. Estas duas gravuras, hoje, tornaram-se absurdas, porque entretanto as pessoas, deixaram de ser religiosas ou, não deixando de o ser, passaram a ver e a viver a religião de outra maneira, longe de qualquer experiência apocalíptica, escatológica, milenarista, monista, cuja lógica acabou por contaminar a política como nos já referidos exemplos.

O que está a acontecer entre nós, que vestimos a camisola do Ocidente, e alguns muçulmanos é um problema de calendário e de linguagem. Nós matámos Deus, ainda que sem tomarmos bem consciência disso, deixando de compreender e aceitar grande parte do que foi biblicamente revelado e institucionalmente imposto ao longo de séculos, enquanto eles ainda estão nestas gravuras do século XVI, motivados por uma revelação que os torna privilegiados aos olhos de Deus. Os homens que numa das imagens usam o colar de orelhas ou tiram as vísceras ao padre ou que na outra enforcam os seus irmãos em Cristo, são hoje muçulmanos fanatizados e terroristas que, radiantes, degolam os despedaçam cristãos. Para os ocidentais de raiz cristã, estas gravuras são incompreensíveis, mais parecendo vir de um bárbaro planeta descrito por Jonathan Swift a muitos anos-luz da Terra, povoado por bizarros yahoos. Já esses jovens violentos, vivem nesse planeta e falando a sua língua sem erros de dicção ou ortográficos.

Ora, enquanto assim for, estamos perante um problema sem solução. A única alternativa é mudar as folhas do calendário e levá-los a falar a língua que é falada pela esmagadora maioria da humanidade, que apenas deseja ter uma vida normal e decente, independentemente da religião ou do regime político ou constitucional em que se vive. Embora na altura talvez parecesse inverosímil, os franceses destas duas gravuras conseguiram virar a folha do calendário, tal como os lisboetas de 1506. Só que para tal ser possível ou pelo menos numa escala menos ameaçadora, seria necessário inoculá-los da violência latente da qual a maior parte das pessoas está protegida mas que afecta sobretudo pessoas que vivem em contextos social, económica e até urbanisticamente desfavoráveis, as incubadoras de onde sai grande parte da violência em qualquer parte do mundo. Não por acaso Lisboa é uma cidade mais complicada do que Berna e Caracas mais complicada do que Lisboa, e estou naturalmente a pensar em cristãos ou gente ocidentalizada, em países onde um agricultor normal, um operário normal, uma professora normal, um comerciante normal, não se distinguem de um normal agricultor marroquino, operário egípcio, professora turca ou comerciante sírio, muçulmanos que apenas desejam ter uma vida normal.