21 abril, 2017

O ARMAZÉM


O conceito de fim é um dos mais importantes da filosofia aristotélica. Para Aristóteles o fim de uma coisa é o seu maior bem. Uma cadeira tem um fim e é por causa desse fim que a procuramos. Se precisarmos de fritar um ovo a cadeira de nada nos serve. Uma cadeira serve para nos sentarmos e não para fritarmos ovos, limpar o pó, pintar, escrever ou pregar quadros numa parede. Até podemosubir para cima de uma para mudar uma lâmpada  mas não é certamente esse o seu maior bem. Vamos agora imaginar que as cadeiras tinham consciência de si. Graças à experiência, depois de verem as pessoas a sentarem-se nelas, iriam perceber o seu fim. Mas imaginemos uma cadeira acabada de fabricar e que fica esquecida num armazém. O que iria pensar de si ao olhar para si própria? Como poderia entender o seu fim se nem sequer sabe o que são pessoas ou o acto de sentar? 

Diz o mesmo Aristóteles que não faz sentido pensar «que um carpinteiro ou um sapateiro tenham uma função a exercer, mas que o homem não tem nenhuma e que a natureza o dispensou de qualquer obra». O que ele quer dizer é o seguinte: se o carpinteiro tem uma função, se o sapateiro tem uma função, por que não há-de ter o ser humano também uma função? Para Aristóteles, a natureza não brinca em serviço, um mundo fechado e ainda muito longe do universo infinito da ciência moderna que nasce algures pelo século XVII. Não é por acaso que na sua Física os corpos pesados estão em baixo e os corpos leves em cima, do mesmo modo que não é por acaso que os aristocratas estão em cima e os escravos em baixo.

Eu compreendo a preocupação do filósofo relativamente ao fim do homem. A chatice é que não podemos ver a vida como uma função como acontece com o sapateiro e o carpinteiro. Uma coisa é o ser humano enquanto carpinteiro, cabeleireira ou tratador de leões, outra é o ser humano enquanto ser humano. Eu sei o que devo fazer sempre que entro numa sala de aula para ensinar alguma coisa, como sei o que posso esperar da rapariga que me corta o cabelo ou do maquinista da CP. Mas o que tenho eu de fazer enquanto ser humano? Aristóteles, que era um homem simpático e bem disposto, achava que nós devemos é ser felizes. O grande problema é que para eu dar uma aula sobre Aristóteles tenho um programa e uma planificação. Para sermos felizes, pelo contrário, temos que jogar com a improvisação pois, que eu saiba, Aristóteles não escreveu nenhuma pauta para sabermos a música que devemos aprender a tocar. Daí a vida, neste aspecto, ser mais parecida com o jazz: muito improviso. Para uns será jazz mais clássico, para outros será mais free jazz. Nalguns casos o seu jazz é tão free que mais parece o Albert Ayler a tocar saxofone depois de ter bebido uma garrafa de uísque após duas noites sem dormir. O que eu queria mesmo era assim uma Arte da Fuga, de Bach, com a sua tão complexamente simples harmonia, dando-me bastante por satisfeito. Mas como isso não existe, não me livro de uma Fuga sem Arte. Que, em termos aristotélicos, equivale a uma fuga sem fim. Diz o George Steiner que We have no more beginnings. Fins, também não.