08 abril, 2017

MUITA VIDA NOS ANOS

Orlando | fotograma

Qualquer pessoa sabe que um dia passado a olhar para uma parede parece nunca mais chegar ao fim e que um outro em que se fazem muitas e variadas coisas passa rapidamente. Falamos, neste caso, de uma experiência do tempo a curto-prazo, por exemplo, um dia ou uma semana. Mas já vai ser o contrário se pensarmos na experiência do tempo a longo-prazo. Se a vida de uma pessoa for sempre igual, como se fosse passada diante de uma parede branca, um dia vai olhar para trás e descobrir, meio perplexa e assustada, que o raio do tempo passou com uma velocidade inacreditável, não percebendo como foi possível chegar aos 50 ou 70 anos sem dar por isso. Já uma pessoa que procura sempre fazer mais e novas coisas, nem que seja aprender alemão ou fazer um curso de pintura aos 70 anos, consegue fazer esticar o tempo e sentir que passou mais lentamente, ao contrário da pessoa para quem o tempo, na experiência a curto-prazo, passou velozmente por ter feito mais e novas coisas.

Isto sou eu a escrever mas apenas me limitei a resumir a reflexão do jovem Hans Castorp no capítulo Excurso sobre o sentido do tempo, do romance A Montanha Mágica. A ser verdade o que ele diz, e a experiência parece mostrar que assim é, então não faz sentido cantar "Muitas felicidades/Muitos anos de vida», no sempre excitante momento em que um aniversariante se prepara para soprar sobre as velas. O que se deveria cantar, neste caso, batendo fortemente as palmas e com um sorriso de esperança rasgado no rosto, é "Muitas felicidades, muita vida nos anos".