04 abril, 2017

MORRER NA PRAIA


Esta fotografia não é de um moribundo qualquer mas de um dos mais míticos e poderosos políticos do século XIX. Eis Otto von Bismarck no seu leito de morte, em 1898. A fotografia foi feita secretamente por Max Priester e Willy Wilcke e publicada já depois da II Guerra Mundial. Por muito subjetiva que seja e que pressuponha uma construção do sujeito, há um dado que não pode ser desprezado em qualquer registo fotográfico: ser feito por uma máquina. Claro que o fotógrafo pode fazer com essa máquina o que bem entender, nomeadamente criar mistificações, ilusões, truncagens, construir personagens. Mas também e, neste caso, contrariamente ao que é habitual com a pintura de heróis e figuras importantes, destrui-las, através de um simples gesto mecânico.

Esta fotografia rouba-nos o mito Bismarck e, como troca, dá-nos o homem Bismarck. Hoje, os políticos gostam de fingir que são pessoas vulgares, apreciando coisas vulgares, fazendo coisas vulgares, dizendo coisas vulgares, como se fossem os nossos vizinhos do lado com quem se bebe uma imperial no café da esquina. Mas Bismarck não é desse tempo. Bismarck teria querido ficar eternamente Otto von Bismarck, um dos "grandes do mundo". Neste sentido, e ao contrário dos políticos actuais, que se aproveitam da fotografia para se enaltecerem vulgarizando-se, Bismarck é vítima da fotografia. Viveu e morreu no século XIX mas, com esta fotografia, azar dele, ao contrário de um D. João II, de um Carlos V, de uma Isabel I, de um Frederico, de uma Catarina, de um Napoleão, intrinsecamente protegidos de um qualquer intruso com uma máquina fotográfica escondida, fica para a eternidade como homem do século XX, morrendo vulgarmente num qualquer hospital como qualquer outro comum dos mortais. Foi mesmo por um triz. Uns anos antes e não teria descido aos vulgares olhares dos dois séculos seguintes.