24 abril, 2017

MILAGRES


Nunca acreditei em milagres mas gosto da sua poética, na literatura, na pintura, no cinema, na fotografia ou até mesmo na história. Enquanto adulto racional que faço questão de ser, posso achar patética a crença numa coisa tão irracional como é um milagre e ter dificuldade em compreender como podem adultos racionais acreditar. Mas isso não lhe retira o seu impacto poético. Nunca me esquecerei da minha professora primária a falar de Lázaro, o homem resgatado da morte graças a um milagre. Um nome que ainda hoje é para mim muito mais do que um simples nome: é o maravilhoso do milagre, o mysterium tremendum, num tempo mítico muito anterior ao nosso tempo cronológico e funcional. Eu não acredito que Jesus Cristo fosse um deus ou que tenha feito milagres, nomeadamente ter ressuscitado depois de morto. Mas acho a história bonita e merecendo-me todo o respeito, até porque, já que ficou para a história assumindo o estatuto de deus, tem todo o direito a esse privilégio, inacessível para o comum dos mortais.

Porém, e mesmo sabendo que o sobrenatural faz parte do código genético de qualquer religião, tenho dificuldade em compreender como pode ser a atribuição de milagres condição necessária para um ser humano aceder à santidade. Desta vez foi uma criança brasileira que, ficando em muito mau estado após uma queda, de repente ficou boa porque o pai invocou Nossa Senhora de Fátima mais as duas criancinhas da Cova da Iria que, graças a este milagre, irão ser canonizadas. Quem diz as crianças da Cova da Iria, diz também D. Nuno Álvares Pereira, também transformado em santo graças a uma cozinheira de Ourém que se curou graças a ele, depois de ter queimado um olho a fritar peixe. Ou madre Teresa de Calcutá, associada já depois de morta à cura milagrosa de um brasileiro com vários tumores cerebrais.

Nada tenho contra o facto de a igreja católica transformar pessoas normais em santos. Não tenho nem tenho de ter, até porque nem sou católico. Porém, e não é certamente o meu caso, existem no mundo pessoas excepcionalmente boas, pessoas de uma extrema doçura que dedicam as suas vidas aos outros, que se sacrificam pelos outros, que põem a felicidade dos outros acima dos seus próprios interesses, em suma, pessoas com uma conduta moral e social que as destaca das pessoas comuns, as quais podem ser boas mas nunca tão boas como aquelas. Ora, se isto não é ser santo, então não sei mesmo o que possa ser, e está mais do que visto que para a Igreja Católica não saberei mesmo. O milagre de haver pessoas assim, num mundo tão imperfeito como o nosso, não chegará para a igreja católica, comprazendo-se antes com todo este fogo-de-artifício sobrenatural que alimenta mais o instinto primário e popular de querer ser salvo das doenças e outros males (ou seja, pensar nos seus próprios interesses) em vez de se concentrar e enaltecer pessoas que deveriam ser eleitas como modelos e referências morais para toda a humanidade, que precisa delas como de pão para a boca.