26 abril, 2017

MIL IMAGENS

[Yad Vashem, Jerusalém]

Vai haver um dia em que já não estará viva uma única pessoa das que morreram em Auschwitz e que poderia ter tranquilamente morrido de velhice no sossego do lar ou de um hospital se não tivesse existido nazismo nem holocausto. Nesse dia, para o qual pouca falta, Auschwitz passará a ser um simples dado histórico, desligado do nosso tempo, entrando no enorme conjunto dos dados históricos dos quais há muito nos desligámos. O EL PAÍS de hoje junta um sobrevivente do bombardeamento de Guernica com descendentes de alemães que nele intervieram. Irá também haver um dia em que já não existirão pessoas que sofreram o bombardeamento nem descendentes directos dos seus responsáveis, apenas descendentes de descendentes de descendentes. Também nesse dia os fervores morais que ainda suscita, transformar-se-ão definitivamente numa página de um livro de história, nalguns casos, num parágrafo, com um bocado de sorte acompanhada de uma imagem com casas destruídas, noutros ainda, numa simples nota de rodapé.

Dirá o DN, também de hoje, que Guernica, o quadro pintado por Picasso, continua actual. Ao dizer-se isto, alimenta-se a ideia de que a arte salvará a realidade do esquecimento. Guernica, o bombardeamento, pode ter sido há 80 anos mas cá está o quadro, sempre vivo, pujante, brutal, para nos inquietar, interpelar, fazer lembrar o horror da guerra, de qualquer guerra. Claro que Guernica, o quadro, continua actual, como actual continuará qualquer obra de arte que expresse o que nunca deixará de ser actual, como é o caso da guerra, uma eterna campeã de actualidade. Mas isso não passa de uma ilusão. O mundo das imagens , seja na pintura, no cinema ou na fotografia, pode interpelar-nos moralmente, fazer o seu cívico trabalho mas isso está muito longe de apontar para a verdadeira essência trágica de certos acontecimentos sórdidos como foram  o holocausto nazi ou o bombardeamento da pequena cidade basca. Como diria Nietzsche em A Origem da Tragédia, «O artista plástico está mergulhado na pura contemplação da imagens. A própria imagem de Aquiles encolerizado é para ele [artista plástico] apenas uma imagem, cuja expressão de cólera ele frui com aquele prazer onírico na aparência - de tal como que, por meio deste espelho de aparência, ele está protegido contra a unificação e fusão com as suas figuras».

Daqui a 50 anos, o bombardeamento de Guernica terá sido há 130 anos. Daqui a 50 anos, o holocausto nazi terá sido também à volta disso. O horror do quadro, como o horror de alguns filmes ou documentários que vimos sobre o holocausto, será cada vez mais um horror apolíneo: depurado, distante, estilizado, pacificado, para ser contemplado por uma alma que está protegida da realidade, como acontece face a qualquer acontecimento trágico mais antigo. E quando isso acontece é como se o acontecimento propriamente dito não se distinguisse de uma das muitas ficções que lemos em romances ou vemos em filmes. E quando isso acontece, voltamos ao ponto inicial, aquele em que tudo pode de novo voltar a acontecer.