22 abril, 2017

EU SEM A MINHA CIRCUNSTÂNCIA




Não é difícil descrever a pintura de Antoine Watteau. Homem do seu espaço e do seu tempo, faz dela um mundo teatral cujos actores representam ambientes típicos da época: cenas de amor, galantes, idílicas, festivas, em luxuriantes jardins. Enfim, uma pintura hedonista que surge como um hino aos prazeres da vida e aos sentidos, em contraponto ao moralismo católico da Contra-Reforma.

Porém, se deixarmos as suas pinturas e entrarmos no mundo dos seus desenhos e esboços, tudo muda. É como se todas aquelas personagens saíssem entretanto do palco onde representam os seus papéis para entrarem no camarim para se desmaquilharem. Enquanto pisam o palco, percebemos que estão no século XVIII e não numa Florença renascentista, na tranquila e doméstica Holanda do século XVII, na impressionista Paris ou Londres do século XIX ou na decadente Viena ou Berlim do século XX. No camarim há apenas um ser humano, um ser humano entregue a si próprio, à sua própria e intransmissível identidade que, sendo de um espaço e de um tempo, a este resiste.

Há uma solidão na mulher do primeiro desenho que a afasta de todas as outras que, na sua pintura, representam diferentes tipos de cena. Ali está tão ensimesmada e afastada que deixa de fazer parte de qualquer espaço ou tempo. Uma imagem antiga mas ao mesmo tempo tão moderna que até poderia ser uma Edith Schiele de costas desenhada pelo seu amante. Apenas ela, e não solitariamente no jardim de um palácio, na sala ou num quarto desse mesmo palácio. Aí a sua solidão seria outra, uma solidão com pose, em grande estilo, uma solidão que nos interpelaria, dizendo "Olhem para mim, olhem para a minha solidão". Neste caso, ali de costas, ausente, nem sequer sabe que a olhamos e, nós, apesar de a vermos, não conseguimos identificá-la. Trata-se apenas de um corpo, um corpo que se debruça para um despojamento quase abstracto, longe de qualquer circunstância.

E que rosto é aquele, o da segunda mulher? De que século é aquele rosto? E o olhar? Aquele olhar não tem tempo, é um olhar que atravessa os séculos como Orlando. E o facto de ser um retrato e não uma pintura potencia ainda mais a intimidade da expressão e do olhar. Porque mesmo os retratos clássicos não estão livres de encenação, muita dela intelectualmente requintada, sem esquecer o contexto onde se insere a personagem e que lhe dá uma identidade histórica e social, a qual transcende a sua simples subjectividade e individualidade. Mas este desenho não é nada mais do que a representação pura de uma expressão e de um olhar. Uma expressão nua, de um olhar nu, sem apetrechos, sem um motivo, um ambiente, longe de uma pletórica narrativa povoada de personagens. O escritor Lobo Antunes costuma dizer que as suas crónicas estão para os seus romances como uma sonata para um sinfonia. Watteau, apesar da sua tão mundana pintura, era um homem frágil e distante. Não custa, pois, imaginar o grande sinfonista rococó, de lápis na mão, compondo melancolicamente estas sonatas visuais, longe de tudo e de todos, para serem vistas no silêncio da mais pura intemporalidade.