06 abril, 2017

ESPETO DE PAU


René Magritte | La Réprodution Interdite

O homem? Bem, o homem conseguiu cultivar as terras, domesticar animais, construir diques, barragens, pontes, canais que ligam mares e oceanos que a geologia separou, cidades que parecem torres de babel, electrodomésticos, computadores, robots, produtos de beleza, roupas sofisticadas, meios de transporte que anulam distâncias, meios de comunicação que ligam pessoas nos antípodas em tempo real, vacinas e medicamentos que tornaram irrisórias doenças que antes aterrorizavam, instrumentos sofisticados que desvendam os segredos mais ocultos da natureza, ou prever o estado do tempo para sabermos se saímos de casa com ou sem chapéu-de-chuva. Mais coisa, menos coisa, é isto que diz o coro no início da tragédia Antígona, escrita por Sófocles há dois mil e tal anos. Daí esse mesmo coro reconhecer ainda que, apesar dos muitos prodígios que existem no mundo, nenhum é maior do que o homem. O termo grego usado para definir o homem é deinón. Eu não sei grego mas diz quem sabe que se trata de uma palavra de difícil tradução, que tanto pode significar algo que provoca admiração e fascínio, como temor, no sentido de algo que está fora do lugar, que é estranho, que foge à ordem e previsibilidade das coisas, implicando, por isso, uma desarmonia. A frase, concretamente, é a seguinte: "Há muitas coisas deinón, mas nenhuma delas é tão deinón quanto o ser humano".

Para entender esta duplicidade do ser humano é preciso acompanhar o que se passa na peça. Uma peça onde abundam palavras como "deliberação", "raciocínio" ou "conhecimento", mas onde o destino trágico bate à porta de cada uma das personagens, cada uma das quais com a sua visão do mundo e ordem de valores, que desabam como um castelo de cartas por causa de escolhas que pareciam ser as melhores. Em suma, lá fora, no mundo, na natureza, no universo, o homem lá vai a pouco e pouco resolvendo o que é preciso. Porém, ao entrar em si próprio, no seu próprio mundo, continua a confrontar-se com os problemas de sempre e para os quais parece não encontrar soluções. Perante esse prodígio, esse deinón que é o homem, dá vontade de dizer o provérbio "Em casa de ferreiro, espeto de pau". Por que razão é o homem tão bom a ordenar o mundo, a natureza, a resolver problemas práticos de ordem técnica, exibindo uma evolução estrondosa (deinón, por que não?) desde o tempo em que Sófocles escreveu a peça, mas quando chega a si próprio, quando se trata de conhecer, raciocinar ou deliberar em momentos onde entra o seu próprio destino, fica à mercê da tyché, isto é, da sorte, da fortuna, dos sortilégios do destino?

Tal acontece porque, ao contrário do que pode fazer com o seu corpo ou com a natureza, não existe uma tecnologia da deliberação e do raciocínio prático. A peça chama-se Antígona mas para Martha Nussbaum [A fragilidade da Bondade-Fortuna e Ética na Tragédia e na Filosofia Grega], o seu verdadeiro tema é «a falha de Creonte». Creonte vê o mundo com base em duas palavras: orthos (recto, que está na origem, por exemplo, de ortodoxia) e orthóo (rectificar). Simplificando: Creonte é um optimista, alguém que acredita na ordem, no poder da lei que imprime ordem e justiça no mundo, no poder do homem para tomar decisões de um modo lúcido e racional, que acredita na eliminação do acaso e da contingência na vida humana mas que, depois, já com o filho morto, resultado dessa sua procura da ordem e da justiça, é obrigado a dizer:

Ai!
Pecados de uma mente dementada,
fatais, obstinados!
Ó vós que vêdes ser da mesma raça
quem mata e quem morre!
Ai das minhas malditas decisões!
Ai, filho, com destino prematuro,
ai!ai!
morreste, partiste,
na juventude, por insensatez,
não tua, mas minha!
[Versão Maria Helena da Rocha Pereira]

Creonte, aquele que menos quer falhar, que em melhor posição está para não falhar, é quem mais falha, atingindo o cúmulo da insensatez, acabando a peça a assumir estar torto tudo o que tem nas mãos (o contrário de orthos, portanto), e pendendo sobre ele um insuportável futuro. O seu problema reside no facto de a sua razão prática não ser a razão de um engenheiro, de um arquitecto, de um médico, de um capitão de navio, uma razão com manual de instruções para resolver problemas. Creonte é apenas um homem que toma decisões erradas quando acredita tomar decisões certas, alguém cujos desejos, que lhe parecem bons e justos, conduzem a dramáticas situações fora de controle. Crente é rei, tem o poder de decisão, procura gerir bem os conflitos mas acaba por perceber que o conflito é parte da vida, sendo muitas vezes impermeável à razão. Creonte, qual ferreiro, com a sua tecnologia jurídica e política, governa bem a cidade mas, depois, quando se trata de se governar a si próprio, é o descalabro, com o seu espeto de pau. Pau que é feito da mesma madeira  de que fala Kant, muitos séculos depois, quando diz que "de um lenho tão retorcido, de que o homem é feito, nada de inteiramente direito se pode fazer".