17 abril, 2017

AS RÃS

Catalá Roca | Señoritas paseando por la Gran Vía

Falar de rabos pode parecer assunto de pouca elevação. Puro engano. A insuspeita história da filosofia é tão abrangente e versátil que nem os rabos ficaram de fora. Claro que ninguém imagina Platão, Descartes ou Kant a reverenciar conceptualmente a dimensão mais traseira do ser humano. Apenas um céptico o poderia ter feito de um modo mais desbocado, e se esse céptico for um homem chamado Montaigne lá no alto da sua girondina torre a assistir ao teatro das comédias humanas, já não surpreende então que nem os traseiros escapem. Alvejando aqueles que desejam elevar o ser humano a um nível que transcende a própria humanidade, diz ele com a sua jovial e inconfundível coloquialidade:

"Querem sair para fora deles mesmos e escapar ao homem. É loucura: em vez de se transformarem em anjos, eles transformam-se em bestas, em vez de se elevarem, afundam-se. Estes humores transcendentes assustam-me, tal como os lugares altaneiros e inacessíveis. [...] É uma absoluta perfeição, quase divina, saber usufruir lealmente do seu ser. Nós procuramos outras condições porque não entendemos o uso das nossas, e saímos para fora de nós por não sabermos o que aí há. Ainda que andássemos sobre andas, era com as nossas pernas que caminharíamos sobre andas; e mesmo que nos sentássemos no mais alto trono do mundo, seria sobre o nosso cu que nos sentaríamos [Et au plus enlevé trône du monde si ne sommes nous assis que sur notre cul]". Ensaios, III, capítulo 13.

O antigo presidente da Mairie de Bordéus não dá ponto sem nó, pois mesmo que aparente pairar apenas sobre a estratosférica dimensão antropológica ou ontológica da filosofia, à inócua bonomia do seu veneno não escapam as mais tangíveis realidades humanas em cujas imperfeições adora fazer pingar o corrosivo líquido. Por exemplo, quando noutras paragens dos seus Ensaios põe em causa a superioridade do ser humano face aos irracionais animais, ou a superioridade dos elegantes e afectados europeus face aos nus e selvagens índios da América do Sul. Ora, menos exemplar não será quando se trata de dissecar a superioridade moral, intelectual ou psicológica de certos humanos face a outros seres humanos, só porque mais social ou politicamente providos.

Como os chapéus, humores transcendentes há muitos, estando todavia muito longe de se esgotarem no místico anseio de elevar o homem àquilo que ele não pode ser, não tanto por não ter sido feito para o ser mas sobretudo porque foi feito para não o ser. Se há coisa que, para o filósofo, não somos nem podemos ser, é anjos. Não apenas porque, ao contrário, de serafins, arcanjos, querubins e potestades, fomos condenados às subterrâneas turbulências do sexo, mas também porque, estejamos sentados ou em pé, parados ou em movimento, a ler ou a dormir, a meditar dentro de um viçoso e bem lubrificado cérebro ou a enlouquecer numa desidratada mioleira que definha, ninguém o faz sem um traseiro pois em parte alguma do universo é suposto existir verso sem reverso. Somos todos iguais porque vamos todos um dia morrer, sejamos ricos ou pobres, inteligentes ou estúpidos, boas ou más pessoas, importantes ou invisíveis? Sem dúvida, vanitas vanitatum omnia vanitas. Mas somos todos iguais porque temos todos temos um rabo, e desse rabo não podemos passar ainda que nos sentemos no mais alto trono do mundo. Os reis têm um rabo, papas, cardeais e bispos rabo terão. Ao rabo também não escapam os mais nobres e os mais elegantes representantes da espécie humana e até os mais ínclitos pensadores o têm. Pode soar estranho, mas Platão, Descartes ou Kant tiveram os seus rabos e foi com esses rabos que tiveram de viver, embora, felizmente, não tenha sido pelos seus rabos que os seus dignos pensamentos saíram para ver a luz do dia, ao contrário do que acontece com tanta gente cujo pensamento só serve para obscurecer a luz do Sol e a pureza do ar com a ameaça da mais pestífera treva mental.

Há uma anedota inglesa que é mais ou menos assim «A guy walks into a bar with a frog on his head. The frog says to the barman: "How do I get this guy off my ass?» Anedota tão engraçada pode lembrar-nos de que, por muito importantes que nos sintamos, isso não chega para podermos estar livres do desprezo de uma rã cujo rabo se eleva acima da nossa cabeça. Rã essa, que do alto do seu rabo, até se podia chamar Rabelais.