19 abril, 2017

A MARATONA

René Jacques

O que significa mesmo a expressão "No meu tempo"? "No meu tempo isto... No meu tempo aquilo"? Uma pessoa que invoca o "seu tempo" parece apresentar-se como um espectro que vai sobrevivendo num tempo que passou a pertencer a outros. Tal como uma alma penada que vive entre dois mundos, acredita que passou a viver num tempo aparente, pois o verdadeiro tempo foi aquele ao qual ficou eternamente presa e que já não existe. A pessoa, sim, existe, vive no mundo, ocupa-o espacialmente, mas a implacável passagem do tempo por ela transforma a sua existência, antes sólida, numa fragilidade gasosa e volátil. Observa o mundo, vive nele, participa dele mas, por outro lado, vai-lhe escapando, passando a vê-lo à distância. Isto pode ser explicado por associarmos a juventude à plenitude ontológica do indivíduo.

Quem diz "no meu tempo" vê o mundo mais ou menos como o primeiro atleta de uma estafeta 4x400. O atleta corre intensamente os "seus" 400 metros e quando chega ao fim, passa o testemunho a outro que começa a correr. Ora, tratando-se de uma equipa, o primeiro atleta continua a participar na prova. Mas já não participa activamente, o seu momento passou, fica apenas parado, esperando que a prova agora protagonizada por outros que lhe sucederam, chegue ao fim. Na vida real, isto acontece a partir do momento em que uma pessoa, atingindo uma idade avançada, presume que viu há muito o que a vida tem de mais importante: o futuro. O  "meu" tempo será o tempo em que se vê o tempo à nossa frente. Psicologicamente isto faz sentido. Mas ontologicamente não faz. Claro que o futuro aos sessenta ou setenta não é o futuro aos vinte ou trinta. Mas o tempo não nos conhece nem nos escolhe tal como nós, ilusoriamente, julgamos conhecê-lo e conquistá-lo para nós. Um dia é um dia, uma hora é uma hora, tenhamos vinte ou setenta anos de idade. E se numa estafeta há um atleta que tem de parar para outro avançar, na vida não tem de ser assim. O movimento de uns não tem de ser a estagnação de outros. A vida é uma pista onde todos correm ao mesmo tempo e na qual, enquanto a meta não é atingida, todos podem ganhar ou perder independentemente da idade. O chocolate comido por uma pessoa de setenta anos não é diferente do chocolate comido por uma outra de trinta anos. O tempo é, simultaneamente, de todos e de ninguém. Não se trata de uma estafeta em que o tempo de um não coincide com o tempo dos outros. Não, trata-se antes de uma maratona na qual todos correm ao mesmo tempo, apenas com a diferença de uns correrem mais depressa e outros mais devagar.