18 março, 2017

VANITAS COM AQUILES E TARTARUGA

Gerhard Richter | Caveira com Vela

Estou à janela da cozinha comendo uma pensativa maçã, enquanto sigo melancolicamente o vago movimento de uma rua de província. Entretanto, emerge no meu campo de visão um sujeito aqui da terra que anda sempre bèbedo. O meu olhar vadio passa então a seguir o aleatório movimento do bêbedo, como fazia em criança com o de moscas indolentes em opressivas tardes de Verão, qual existencialista perante a náusea de viver.

O homem, ora se inclina para a direita, ora se inclina para a esquerda, pára, abana, dá mais uns passos e percebo pelos movimentos do braço direito que, como é seu hábito, fala sozinho, embora com a convicção e o entusiasmo de quem faz um discurso solene para uma grande assembleia. De repente, em grande velocidade e grande estilo, com amaneirado equipamento desportivo, surge tammbém no meu campo de visão um homem a correr. Como as leis da Física continuam a ser o que sempre foram, o desportista ultrapassa o bêbedo para rapidamente desaparecer no fio do meu urbano horizonte. O bêbedo, esse, prossegue a sua tortuosa e errática odisseia, parando, cambaleando, dando mais uns passos, convicto do importante discurso etilicamente bafejado sobre o mais universal dos auditórios.

Porém, (e o que é a vida senão um labirinto de poréns?), como diria Zenão de Eleia, esse bom eleático e digno herdeiro do seu mestre, a tremenda dissonância entre os movimentos do desportista e os do bêbedo não passam de uma ilusão dos sentidos. A montante, lá bem a montante, por muito veloz que um corra com o seu equipamento colorido e o outro, meio andrajoso, vá cambaleando, irão para todo o sempre repousar lado a lado, quando ambos chegarem à grande meta.