29 março, 2017

OS CORREDORES E AS PAREDES

Jean Luc Godard | Bande à Part

Até nem está no Louvre mas foi da figura de Cronos devorando os seus filhos numa parede do Prado, que me lembrei enquanto via Francofonia, filme/documentário de Sokurov sobre o museu parisiense. Sobre o Louvre em particular mas, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre o tempo e sobre a natureza de um museu, qualquer museu. 

Uma obra de arte revela factos e personagens que o tempo tornará espectrais. O que foi a Revolução Francesa? Um mundo ruidoso e virado ao contrário mas que hoje não passa de um simples nome para catalogar um conjunto de factos e quem os personificou. Quem foram Robespierre ou Napoleão, esse espírito do mundo que, Hegel, um filósofo da história, viu montado num cavalo mesmo por baixo da sua janela? Não só o espírito do mundo mas também senhor de meio mundo, um pequeno pedaço de homem mas um grande salto para a humanidade. Mas, depois, tudo morre, Robespierre, Napoleão, os seus mundos, para se desvanecer definitivamente na textura do mundo futuro, ficando apenas uma indirecta e vaga memória.

No centro do filme surgem dois homens de campos opostos mas unidos pelo amor à arte. De um lado, Jacques Jaujard, francês, director do Louvre, ex-combatente na I Guerra Mundial contra os alemães. Do outro, Franz Wolff Metternich, um aristocrata alemão formado em História de Arte, que combateu os franceses na I Guerra Mundial e que se encontra em Paris com o objectivo de, numa Europa onde a guerra vai crescendo, proteger as obras de arte naturalmente ameaçadas pelo brutal impacto das bombas. Mais até do que figuras centrais são figuras simbólicas no sentido verdadeiramente etimológico da palavra: unir duas partes que estão separadas. Jaujard e Metternich são dois homens de um mundo em convulsão, seres que habitam no tempo, um tempo que se faz e desfaz como se viesse do tear de Penélope. Mas também são dois homens que, enquanto amantes da arte, vivem num mundo inteligível, imutável, silencioso, impermeável às turbulências sociais e políticas da história.

Dentro do museu deixa de ser importante ser francês ou alemão, civil ou militar, invasor ou invadido. O que é ser francês ou alemão, civil ou militar, perante a expressão de La Gioconda, perante uma múmia egípcia, o Naufrágio da Medusa? Aliás, o que é ser mesmo Napoleão, o corso de carne e osso que marcou uma parte da história de França, e que surge como personagem no filme, passeando pelo museu, perante a sua coroação eternizada no quadro de Jacques-Louis David, ou perante os tesouros trazidos de países longínquos? Nada. O peso do mundo vai-se dissolvendo mas o museu permanece com as suas vozes silenciosas para quem as quiser, ou souber, escutar. Nós não vivemos a guerra franco-prussiana, quem a viveu não viveu as guerras napoleónicas que, por sua vez, não viveu a guerra dos Trinta Anos. O espaço e o tempo tornam os mundos distantes, o nosso do mundo de Bismarck, o deste do de Napoleão e por aí fora: Goethe, Rousseau, Frederico II, Catarina ou Francisco I. Cada um olha para o seu mundo mas ao suspenderem todos eles o olhar sobre La Gioconda, descobrem um mundo que é de todos e não é de ninguém, um mundo que se autonomizou, que conquistou o seu próprio sentido e conservado num silencioso aquário onde o relógio parou e, onde ao contrário dos luscos-fuscos da história, a luz é eterna, sendo, por isso, mais real, mais verdadeiro e mais absoluto do que aquele à saída do museu, com os seus dias sempre e fatalmente contados.