13 março, 2017

O VERDADEIRO ARTISTA

[All About Eve]

«Entrevistador: Dois anos antes, és eleito pelos próprios árbitros espanhóis o melhor piscinero da Liga.
Paulo Futre: Tem de ser com drama, senão… Eu, pelo menos, fazia isso. Atirava-me com estilo. Tem de ser. Só assim é que os árbitros caem na fita. Havia árbitros que me conheciam de ginjeira, sabiam da minha queda para o mergulho, e, mesmo assim, apitavam penáltis que não eram.» [Observador]

«Mais fácil achou um prudente que seria acender dentro do mar uma fogueira que espertar, em um peito vil, fervores de nobreza. Contudo, ninguém me estranhe chamar nobre à arte cujos professores, por leis divinas e humanas, são tidos por infames. Essa é a valentia desta arte - como a dos alquimistas, que se gabam que sabem fazer oiro de enxofre - que de gente vil faz fidalgos, porque aonde luz o oiro não há vileza.» A Arte de Furtar, Anónimo


Alguns mordazes textos de Eça de Queirós, de âmbito mais social e político, são hoje bastante populares pela sua tão grande quanto triste actualidade, servindo para mostrar como certas coisas pouco mudaram. Felizmente (ou antes, infelizmente) há outros textos menos conhecidos, alguns bem mais antigos, cuja actualidade está também para durar. Um deles foi dado à luz do dia três séculos antes de o pequeno José Maria a ter visto pela primeira vez. Chama-se a A Arte de Furtar, uma pérola do nosso barroco. Arte de furtar porque furtar só pode mesmo ser uma arte se atendermos ao desafogo com que é exercida. Na verdade, para se conseguirem sucessivos proveitos à custa dos prejuízos alheios, exige-se o dom de aplicar certas regras e preceitos, o qual não está ao alcance do comum dos mortais. Ora, vários séculos depois, Portugal, para além de país de poetas, continua a revelar-se um fértil solo para verdadeiros cultores dessa arte, vil segundo a moral mas que, a jusante, os enobrece, tanto no bolso como na boa fama. E por que lhes chamo eu «verdadeiros artistas» em vez de simplesmente «artistas»? Porque se para enganar, iludir, roubar, espoliar, prejudicar os outros em proveito próprio é preciso ser artista, mais artístico ainda será fazê-lo com orgulho e vaidade, e necessidade de possuir um palco para nele exibir a sua arte, a qual o faz ser digno de inveja.

O futebolista Paulo Futre é um bom exemplo de «verdadeiro artista». Não satisfeito por somente enganar os árbitros para roubar os seus adversários, ainda se compraz ufanamente com a sua arte. Acontece, infelizmente, não ser caso único em Portugal. Em Portugal rouba quem pode e se não se rouba é porque não se pode. Sobretudo o Estado, o que significa roubar, com arte, claro, não o que é apenas de alguns, mas o que a todos pertence e, supostamente, para seu proveito. Portugal não será caso único na Europa, uma vez que a expulsão do Paraíso não deixou nenhum canto da Terra imune. Mas também em mais nenhum lado da parte mais civilizada da Europa se vê tanta pública descontracção no artista que, sem grandes pudores, exibe o produto da sua obra sob o brilho dos holofotes, assim como a impotente inveja de quem, sentado na obscura plateia, não foi bafejado pelos genéticos dons da arte. Espectáculo moralmente indecoroso mas que só acontece, tal como nos penálties de Futre, por uma putativa ingenuidade, problemas oftalmológicos ou, quiçá, irresponsável conivência dos árbitros, que têm por obrigação aplicar as leis que, apenas no papel, têm a mesma eficácia da comida num prato sem chegar à boca do faminto. Como diria o artista de quem se fala em A Arte de Furtar, «Con arte y con engaño, vivo la mitad del año; y con engño y arte vivo la  otra parte». Grandes são os frutos destes furtos, bem poderia dizer o grande Futre.