12 março, 2017

O URSO E A ARARA

Elliott Erwtt

Lembro-me de um diz Miguel Portas dizer, em entrevista, que quando discutia política com o irmão não procurava convencê-lo do erro das suas ideias, do mesmo modo que este também não procurava convencê-lo do erro das suas. E rematava: não vale a pena. Que não vale a pena discutir e tentar convencer quem pensa de maneira diferente não é novidade nenhuma. O que me interessa aqui é a noção de erro quando associada às ideias de outra pessoa que pensa de um modo diferente e, à luz do que é a filosofia política, saber se faz algum sentido falar em ideias certas ou erradas.

Obviamente que para Miguel Portas as suas ideias estavam certas e as de Paulo Portas estavam erradas. Porém, não faz sentido falar aqui em ideias certas ou erradas mas apenas em incompatíveis concepções de vida, de mundo, de sociedade que não podem estar certas nem erradas. Existe erro quando um juízo não corresponde a uma realidade objectiva. É errado dizer que a capital de Espanha é Valência, que Sampaio da Nóvoa é Presidente da República ou que Donald Trump é mulato. Mas onde estaria o erro de Miguel ou o erro de Paulo? Por que razão estariam errados? Imaginemos um urso polar a discutir com uma arara sobre o melhor sítio para viver. O urso polar diz que deve ser frio e cheio de gelo. A arara, contesta, dizendo que deve ser quente e húmido. Tudo certo até aqui. Mas como pode o urso polar dizer que a arara está errada por não pensar como ele? E como pode a arara dizer a mesma coisa? Têm ideias opostas, mas a verdade de um não implica o erro do outro como acontece com afirmações contraditórias cujo valor de verdade é incompatível. As afirmações "A Holanda faz fronteira com a Bélgica" e "A Holanda não faz fronteira com a Bélgica" não podem ser simultaneamente verdadeiras ou falsas, pois a verdade de uma implica a falsidade da outra.

A filosofia política, pelo contrário, é uma arena de muitos interesses e conflitos que jamais poderão ser resolvidos a partir de uma objectividade formal (lógica ou matemática) ou empírica. Por exemplo, se há quem deseje uma sociedade cujo valor mais importante é a igualdade, haverá também quem deseje uma sociedade onde prevaleça a liberdade. Como resolver isto? Não se pode. Porque se tratam de valores não só incompatíveis mas também incomensuráveis. O gelo é desejável para um animal que foi feito para o desejar porque é ali que encontra o seu alimento e as condições para poder ser feliz. O calor e a humidade, ou seja, o oposto, são desejáveis para quem os deseja precisamente pelas mesmas razões que levam o outro a desejar o oposto do que este deseja. Sempre assim foi e assim será sempre. Por isso a história nunca acabará, nunca haverá aquilo a que se convencionou chamar«o fim da história». A não ser que um dia tenhamos um mundo só de Miguéis ou só de Paulos. Houve quem já o tentasse mas não correu bem.