22 março, 2017

O CHAPÉU

August Sander

Turma complicada. Informo de novo o aluno de que deve tirar o boné. Desta vez resolve questionar a ordem, alegando que um boné não perturba a aula. Bem vistas as coisas, tem razão. Se ele viesse com um apito, isso sim, faria diferença. Agora, um silencioso e discreto chapéu sobre uma cabeça é, de um ponto de vista objectivo, tão neutro ou indiferente como as paredes da sala de aula ou mais ainda do que as lâmpadas que por vezes se lembram de lançar um zumbido irritante. Porém, tivesse o aluno lido A Montanha Mágica, ir-se-ia lembrar da conversa em que Joachim Ziemsen fala ao primo daquele dia em que, no corredor do sanatório, se cruzou com três pessoas com o viático, as quais se dirigiam para o quarto de uma menina, dias antes cheia de vida, para lhe darem a extrema-unção. Um momento de forte perturbação para Joachim, ficando sem saber o que fazer uma vez que não levava o chapéu para o poder tirar. A única coisa que pôde fazer foi encostar-se à parede numa atitude conveniente. Perante o descrito, o primo invocou então a necessidade de usar chapéu, aproveitando para censurar o facto de naquele lugar ninguém o usar. E remata: deve-se usar chapéu para o poder tirar nas ocasiões oportunas. 

Há mil e uma coisas que distinguem os seres humanos dos animais. Os símbolos e os rituais, enquanto elementos que fazem parte de um código social, são das mais importantes pelo modo como fundam e preservam uma ordem social onde as crenças e as acções têm um significado moral e estético, em vez de se reduzirem a meros impulsos individuais, avulsos e desconexos. Se um jovem, quando está com os amigos, disser palavras que se convencionou serem asneiras, apesar de nada significarem, mas já não o fizer se for a passar uma senhora, mostra respeito. Se alguém se veste melhor para ser recebido pelo Presidente da República, está a mostrar respeito. Do mesmo modo, tirar o chapéu para cumprimentar um conhecido que passa na rua ou quando se entra num espaço que transcende os nossos mecanismos individuais mais espontâneos, mostra-se respeito. E mostrar respeito é uma forma de as pessoas se valorizarem mutuamente, ganhando visibilidade e protagonismo, independentemente da idade, do sexo, da classe social, da profissão. Ou de aceitar o facto de existirem valores que, ao serem respeitados por uma pessoa, faz com que esta seja digna deles, sendo por isso também respeitada.

Os códigos poderiam ser outros? Sim, sendo convenções, podiam. No caso do chapéu passa-se o mesmo. Mas foi este que se criou, levando então Hans Castorp, o primo, a dizer que só para poder tirá-lo quando for caso disso já faz sentido usá-lo. Acontece que o pragmatismo e utilitarismo moderno, com os seus sucessivos processos de dessimbolização e desritualização, deitam por terra essa ordem que Hans Castorp vê como necessária. A liberdade e a espontaneidade anómicas, em vez de reforçarem a visibilidade do indivíduo, tornam-o cada vez mais numa carta fora do precioso baralho que lhe confere um significado.