26 março, 2017

O CEMITÉRIO



Uma pessoa olha para esta fotografia e não pode logo deixar de pensar «Bolas, pois é, o jeito que daria a uma Europa tão desvairada, o velho idealismo em que nos uníamos contra o 'Turco', os infiéis, os inimigos da fé, fossem árabes ou Hunos, em redor de um projecto comum: o cristianismo». Os cérebros podem andar meio secos mas é claro que não passa pela cabeça de ninguém um quixotesco regresso a uma Europa medieval. Mas, caramba, esta fotografia não deixa de me interpelar. Repare-se bem. Líderes europeus que falam diferentes línguas, uns do norte, outros do sul, outros do leste e outros do oeste, todos eles maquinistas que conduzem comboios com velocidades bem distintas. Uns vivem no bem bom dos copos, das mulheres e das praias, pago por outros que só sabem trabalhar e passar o resto do tempo em casa, junto da família, rezando durante os longos e frios serões do norte. Uns são mais liberais, outros mais social-democratas e até há extremistas infiltrados, à esquerda, como na Grécia, à direita, como na Hungria ou na Polónia. Uns têm eixos políticos entre si, fazendo parte de clubes elitistas dentro da própria união enquanto outros se sentem os patinhos feios que não são convidados para os chás das 5. Mas depois olhamos para o centro, bem para o centro, e o que vemos? Naquele capela de tanta simbólica importância, e no meio de tanta roupa escura a fazer lembrar zelosos e competentes funcionários de uma agência funerária, uma figura branca, quase angélica, o bispo dessa velha Roma cujo sopro espalhou uma cultura comum por todo um continente, uma língua comum, um livro comum, levando tanta daquela gente a unir-se para ir combater em Jerusalém ou em Lepanto em nome de um ideal e de uma fé comum.

Mas não nos deixemos iludir. Nem Hollande ou a senhora Merkel são Henrique IV a caminho de Canossa nem o bom Franciso é um Gregório VII excitado por vê-los ajoelhados a seus pés. E até porque nem Gregório VII ou qualquer outro papa que fosse, alguma vez conseguiu unir verdadeiramente uma Europa que sempre foi mais de famílias, de dinastias, de reinos, enfim, de interesses privados, do que propriamente cristã. Nada melhor do que Richelieu e a sua raison d'état para compreender o velho espírito europeu, sempre tão alegremente posto à prova em campos de batalha que vão de Aljubarrota e Estalinegrado, passando por Trafalgar, Austerlitz, a lama das Ardenas, aproveitando-se finalmente ter o soldado soviético a colocar a bandeirinha no Reichstag para ir à casa de banho fazer um xixi e fumar um cigarrinho.


Como explicar a velha Europa cristã a totós não é um exercício fácil, talvez seja interessante recorrer ao Portugal-Hungria de ontem. Estádio da luz quase cheio, bandeirinhas na mão, hino nacional cantado, toda a gente em delírio com as fintas e os golos de Cristiano, aliás, nome que até vem a calhar. Mas, depois, cá fora, todos regressam para os seus interesses privados e nada de grandes misturas, uns ricos, outros pobres, uns corruptos, roubando o dinheiro que é de todos, outros recebendo subsídio de desemprego com dinheiro dos impostos de outros. Ah, e uns são do Benfica, outros do Sporting, outros ainda do Porto, havendo cada vez menos do Belenenses ou da Académica. É isto um drama? Pode ser mas deveríamos estar habituados. Foi nesta Europa que sempre vivemos e é nesta Europa que sempre iremos viver, esteja esta mais unida ou desunida do que agora. Como diria Paul Hazard, a consciência europeia é uma consciência de crise e estar em situação crítica está-lhe na massa do sangue. Ainda assim, vale a pena recordar o que diz Ivan nos Irmãos Karamazov, a caminho da Europa: «Sei que me desloco para um cemitério, mas é o mais agradável de todos os cemitérios». Podemos ter lado a lado campas rasas e sumptuosos jazigos românticos. Mas enquanto estiverem todos entretidos com o chilrear dos passarinhos e o rumorejar das árvores abanadas por um cálida brisa de fim de tarde, nós, os vivos e que só queremos uma vida normal, podemos dormir descansados.