08 março, 2017

DIAS FELIZES



«Eu nunca me cansarei de repetir: a única razão de ser do romance é dizer aquilo que só o romance pode dizer.» Milan Kundera, A Arte do Romance

Florença, século XIV. A peste invade a cidade, tornando o seu ambiente irrespirável, não só pela doença mas também social e moralmente. Vai daí, sete nobre damas e três jovens de elevada condição, encontrando-se na igreja de Santa Maria Novella, resolvem ir passar uns dias no campo em busca de jovialidade, paz e harmonia, impossíveis na infecta cidade. Como diz Pampinea: viver sem ralações, não procurando outra coisa senão dias felizes. E é já nesse cenário campestre que a mesma Pampinea apresenta a sugestão de, diariamente, ao final de cada tarde, cada um contar uma história, tratando com total liberdade o assunto que mais lhe agradar. Nasce assim o Decameron, com as suas cem histórias (10 pessoas x 10 dias), obra que inscreveu Boccaccio no panteão da literatura. Este processo do domínio da ficção faz lembrar um outro, desta vez real, que está na origem do Frankenstein. Um grupo de amigos, gente como Lord Byron e Percy Shelley, passa o Verão numa casa junto a lago suíço. O tempo está mau, sempre a chover, obrigando o pessoal a ficar fechado em casa. Durante esses dias era costume contarem histórias de fantasmas (estamos no século XIX), tendo Byron proposto que cada um deles criasse a sua história, o que levou, dias depois, a jovem Mary a apresentar o seu Frankenstein.

Decameron é uma grande obra da cultura italiana e universal. Dir-se-á ainda que moderna pelo modo como expressa o espírito laico de uma burguesia comercial que irá ajudar na derrocada do pacato mundo medieval. Porém, mais do que isso, do que uma obra literária como a Ilíada, Antígona, A Divina Comédia, o Fausto, Os Maias ou um qualquer livro de Valter Hugo Mãe, podemos ver na origem e essência do Decameron a origem e essência da própria literatura. Poderia cair na tentação de encontrar esse estatuto no modo como Sherazade desenvolve as suas mil e uma histórias. Mas não. Não  podemos ver na literatura uma subtil estratégia de sobrevivência, que dura enquanto a foice da morte pairar sobre a cabeça de quem cria. E que tal o Quixote, plenamente mergulhado nos seus livros de ficção que transformaram a sua própria vida numa ficção? Também não. A literatura não é uma ilha utópica para onde se vai viver, antes um livre exercício imaginativo que não obriga o leitor a perder o mundo como sua referência empírica. Não, é no Decameron que irei mesmo votar. E justifico o meu voto com as palavras com que o próprio Boccaccio, no final da obra, se dirige às leitoras, para explicar o seu sentido. 

Diz-lhes que escreveu para ser lido por pessoas ociosas e necessitadas de ocupar o tempo. Duas coisas a este respeito. Primeira: através de um subtil jogo de espelhos, faz das palavras de Pampinea ao propor a sequência de contos, as suas palavras. Ou, se quisermos, faz das suas palavras, as palavras de Pampinea. Quer dizer, o motivo para Boccaccio escrever o livro é o mesmo invocado por Pampinea para contar as histórias do livro escrito por Boccaccio: o ócio e a necessidade de ocupar o tempo. O que nos leva de imediato ao segundo aspecto: a desmistificação da literatura como exercício de escrita, retirando-lhe seriedade e peso institucional associados a outro tipo de textos. Por exemplo, à Filosofia: «Os memoriais convêm de preferência aos estudantes, que trabalham, não para passar o tempo, mas para o empregar judiciosamente; vós senhoras, não tendes que fazer, visto terdes todo que não dedicais aos prazeres do amor. Pensei que nenhuma das vossas irmãs frequenta Atenas, Bolonha ou Paris para aí estudar. É necessário pois falar-vos de mais maneira mais explícita do que àqueles cujos espíritos a escolástica aguçou». A literatura não é, pois, dirigida a eruditos espíritos mais treinados no rigor da Dialéctica, da Gramática ou da Retórica. A literatura serve antes para divertir, sentindo-se ele tão leve ao escrevê-la que parece flutuar na água «como nozes de gralha». Mas não é só na Filosofia que o peso do pensamento austero que ele deseja evitar se faz sentir. Também na religião. Ouçamo-lo de novo: «Pensei que este tom divertido conviria a pequenas obras, escritas para combater o humor sombrio nas mulheres. Se as minhas leitoras rirem demasiado, as lamentações de Jeremias, a paixão do Salvador, as lamentações de Madalena, porão fim a essa alegria». Compreendemos, pois, que tanto as ousadias criativas da literatura podem ser apresentadas como contraponto da gravitas religiosa, como esta surgir também como contraponto das primeiras, gerando um equilíbrio de humores. Mas em territórios diferentes, parece evidente.

Em suma, a literatura ocupa o seu próprio e inconfundível lugar na vida do espírito. Não com a veleidade de surgir como uma via «séria» ou intelectualmente depurada rumo a uma verdade, seja esta filosófica, científica ou religiosa mas com o objectivo de criar mundos ficcionais para ajudar a viver melhor no mundo real. Isso, porém, não demite a literatura de perseguir fins mais elevados. Basta ler o Decameron para o compreender. Lá, vamos encontrar crítica social, religiosa, moral. O que a afasta de outros planos não são os conteúdos, é a forma, assim como o espírito de quem escreve e o espírito de quem lê. Podemos aprender com os romances mas não é para aprender que os lemos. Podemos fazer Filosofia com os romances mas não é para fazer Filosofia que os lemos. Podemos fazer crítica social com os romances mas não é para fazer crítica social que os lemos. Lemos romances, contos, enfim, histórias, porque dão prazer, mais um prazer que perseguimos na vida no meio de tantos outros. O mesmo prazer que perseguiram aqueles dez amigos na sua villa florentina em ociosos finais de tarde.