27 março, 2017

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE ESTAR


As coisas que já se disseram nas redes sociais sobre a indiferença desta mulher na ponte de Westminster logo depois do atentado. Indiferença que só pode ser explicada pela sua brutal insensibilidade e desprezo pelo sofrimento das vítimas. Muçulmana, claro, e na volta ainda se irá a rir por dentro por mais esta brincadeira. Podemos pensar que tão acalorada indignação tem por detrás a islamofóbica mãozinha do costume, aproveitando o facto de a mulher se ter posto a jeito para se poder anatematizar a ralé muçulmana e o seu desprezo por nós, cristãos. Porém, há que exercitar um pouco a memória e lembrar a célebre fotografia, vencedora do World Press Photo de 2007, na qual um grupo de jovens bonitos e elegantes dentro de um descapotável, passeia em Beirute, por entre os escombros, após um bombardeamento israelita. A reacção foi igual: que desplante, que desfaçatez, passear assim num cenário de destruição como se estivessem em Beverly Hills. Muito bem. Só que, neste caso, não se tratou de muçulmanos indiferentes às vítimas cristãs mas de muçulmanos entre muçulmanos. E se exercitarmos ainda mais a memória, podemos invocar a também célebre fotografia de Thomas Hoepker em 11/9: enquanto as Torres Gémeas vão ardendo, com a humanidade em directo a assistir em estado de choque, no outro lado do rio, junto à baía de Brooklyn, vários jovens conversam descontraidamente como se estivessem numa esplanada a beber umas cervejas. As coisas que na altura também se disseram sobre a falta de valores e egoísmo da juventude. Neste caso, cristãos, muito WASP até, assistindo à matança de cristãos, não muçulmanos. Em suma, para explicar as reacções à fotografia de Westminster, há que procurar uma resposta mais vasta do que a simples pista islamofóbica. 

A meu ver, todas estas respostas resultam de uma incapacidade moderna para ver a realidade tal como ela é. Já estamos de tal modo habituados a viver num mundo virtualmente condensado pelas televisões, Internet e redes sociais, onde apenas conta o que é mediaticamente visível e impactante, que ficamos cegos perante a microscópica normalidade ou vulgaridade das acções e gestos de que são feitas as nossas vidas quotidianas. A mulher desta fotografia, em pânico (confirmado depois pelo fotógrafo), comete o pecado de telefonar para dizer que está tudo bem consigo. Em Beirute, cometem o pecado de serem jovens e bonitos e bem vestidos, regressando ao bairro onde vivem, dando conta da sua destruição. Em Nova Iorque, aqueles jovens cometem o pecado de, tal como os anteriores, em vez de estarem cheios de sangue, aos gritos ou a socorrer pessoas feridas, viverem do outro lado do rio, assistindo, impotentes, à destruição das torres.

Mas isso os nossos olhos não vêem. Apenas os dramáticos 30 segundos ou minuto e meio da praxe que transformam a realidade num drama barroco, feito de dor, sofrimento, morte, o qual, depois pede de imediato o momento "Je suis Charlie", a pletórica comoção das vigilantes e reactivas redes sociais, sempre prontas para salvar o mundo com a sua moral feita de lágrimas, frases feitas e velas acesas. Depois do fascismo higiénico e do fascismo alimentar, somos igualmente ameaçados pelo fascismo dramático que ataca tudo o que é suspeito de anormalidade precisamente por ser normal. Esta mulher na ponte de Westminster deveria ter pensado nisso e esconder-se em qualquer lado para poder então telefonar. Os fascistas das redes sociais não dormem.