14 março, 2017

A ESTUFA




Tenho a impressão de que não há nada de filosoficamente tão radical como a dúvida cartesiana. Devastadora, arrasadora, uma paquidérmica dúvida nessa loja de frágeis porcelanas chamada realidade. Quem não foi nessa cantiga foi o nosso vizinho Miguel de Unamuno, que lhe chama «dúvida de estufa». Sim, académica, nascida em berço de oiro e muito bem tratadinha durante quentes e serenas cogitações em frente à lareira. Uma dúvida radical e hiperbólica, sim, mas que não compromete a pessoa verdadeiramente de carne e osso cuja vida é lá fora.

Desconfio por isso que Unamuno iria achar piada a esta rapariga, ferida durante as movimentações de Maio de 1968, em Paris, sendo transportada para o hospital. Vai para o hospital mas olhemos para a sua expressão concentrada e pose serena com dois dedos no queixo, perante o ar de normalidade e indiferença de quem por ali anda. Não fosse o envoltório dramático da imagem, e fixando-nos apenas na parte superior da rapariga, poderíamos dizer que está na primeira fila, não de um combate, mas de um dos Seminários de Lacan ou deitada num sofá a tentar decifrar uma qualquer obscura passagem, dessa obscura obra que é «Pour Marx», do obscuro Althusser. Se compararmos esta «foto de guerra», com aquelas que vemos todos os dias em muitas partes do mundo, diremos que se trata de uma fotografia tipicamente europeia. Esta rapariga, cujo início de vida coincide com o fim da II Guerra Mundial, numa França ou numa Europa Ocidental politicamente estáveis, liberais, e em franco desenvolvimento económico e social, ao contrário dos seus pais, avós, bisavós ou trisavós, cresceu numa estufa. Andou por Paris a manifestar-se, a gritar, a lutar, a partir a loiça, porém, tudo isso, numa confortável e aquecida estufa. Andou pelas ruas a fazê-lo com o mesmo espírito com que poderia estar numa cave de Saint-Germain-des-Prés a discutir marxismo, maoismo, trotskismo  ou a democracia burguesa com um reaccionário adepto de Aron.

Enquanto lá fora, noutras partes do mundo, o vento sopra mesmo gelado, a chuva molha e as pneumonias matam, na estufa, pelo contrário, o combate tem a mesma função do cogito: começar por provar que se existe. Depois dos gritos e das correrias de minutos antes, o que vemos no rosto desta rapariga é a expressão segura e tranquila de quem vai para o hospital ferido com o mesmo espírito de quem se sente preparado para ir defender uma tese universitária. A sua ida para o hospital no meio de enfermeiros e bombeiros é a prova de que seu espírito revolucionário, contestatário, lutador, libertador, não é só da boca para fora, do mesmo modo que uma pessoa pode julgar que sabe muito mas só perante um júri porá à prova esse saber. 

Uma associação entre Unamuno e Althusser é tão espúria e improvável como entre Martha Argerich e Keith Richards. Porém, se pensarmos na crítica do segundo às brincadeiras de Maio, nas quais não alinhou, fica-se com a ideia de que o primeiro, tendo a estufa cartesiana como referência, não deixaria de aplaudir:«Quando a revolta termina em derrota sem os trabalhadores serem massacrados, não é necessariamente bom para a classe trabalhadora, que fica sem mártires para chorar e comemorar». Esta rapariga, que não é trabalhadora na fábrica da Renault mas estudante, teria certamente admiração por Che Guevara, morto pouco tempo antes. As montanhas da Bolívia entre outros lugares exóticos da Terra, serão uma boa fábrica de mártires para serem chorados e comemorados. Na estufa, pelo contrário, a experiência revolucionária não passa de uma experiência de crescimento, como acontece com uma planta, entre um seminário de Lacan e um après-midi com um livro de Althusser nas mãos, para serem depois discutidos entre jazz e cigarros numa cave de Saint-Germain-des-Prés.