06 fevereiro, 2017

SIM, EU SEI, QUE TUDO SÃO RECORDAÇÕES

Alfonse Van Besten | Nero Tocando Harpa, 1912 [autocromo]

Trinta e tal anos depois, revi, finalmente, O Meu Tio da América, um daqueles filmes que sempre fiz questão de voltar a ver, até para perceber se o impacto seria o mesmo que nos meus vinte anos. Mas não é do filme enquanto objecto cinematográfico que venho falar, assunto de outro campeonato no qual não irei agora entrar. O que me traz aqui é a estranheza de ver um filme que é do meu tempo, cujas acções decorrem num tempo em que já sou adulto, tendo vivido aqueles carros, roupas, penteados, decorações, ambientes e insignificantes detalhes da vida material, como sendo meus, no meio dos quais vivi sem qualquer distância entre mim e mim, mas que, ao mesmo tempo, a partir de uma contemplativa janela, vejo num espaço/tempo onde já não estou, apesar de ainda lá estar, pois nunca deixaremos de estar onde alguma vez estivemos.

Com um filme histórico, na sua verdadeira acepção, tal não acontece, pois a distância entre nós e o seu tempo é demasiado grande para podermos lá estar. Seja um filme passado na Roma Antiga ou, já bem mais perto de nós, um Western de John Ford, uma série inglesa cuja acção decorre numa Londres vitoriana ou, mais perto ainda, na Alemanha dos anos 30. É por isso que este autocromo de 1912 não pode deixar de ter um efeito cómico em virtude da absoluta artificialidade da representação. Com O Meu Tio da América é diferente: está já demasiado afastado para eu lá estar mas também demasiado perto para eu já lá não estar. Num dos mais clássicos e fundadores textos da cultura ocidental, o Fédon, cujo assunto principal é a defesa da tese da imortalidade da alma, há uma passagem onde Sócrates fala de almas que pairam à volta das sepulturas sem conseguirem partir para o mundo a que pertencem depois da morte física. Tal acontece devido à forte ligação que, em vida, tiveram com o corpo, do qual agora mostram dificuldade em se libertar, donde a natureza espectral dessas almas. De certo modo, é também esta a minha relação com o filme: espectral. É um mundo onde vivi mas do qual já saí, um mundo que já vejo a partir de fora, enquanto cogito cartesiano que observa e deseja compreender essa coisa extensa, fora de mim, mas da qual retenho uma memória em virtude de uma ténue ligação a ele, qualquer coisa como a glândula pineal de que fala Descartes, que permite uma ligação entre o cogito enquanto coisa que pensa e o corpo enquanto coisa física, extensa e, por isso, exterior.

Imaginemos agora uma pessoa imortal, que vai atravessando, consciente e lúcida, a história, desde os primórdios até à actualidade, tal como eu atravessei algumas décadas de vida, e que faz com que eu tenha hoje a referida experiência do filme. Por exemplo, o/a Orlando, de Virginia Woolf. Como seria a memória dessa pessoa que viveu na Grécia Antiga, que estava em Roma durante a queda do Império, que viveu num feudal castelo medieval francês, que esteve em Florença no tempo dos Médici, e por aí fora, vivendo, in situ et tempore, inúmeras invenções, descobertas, crises, avanços, fomes, doenças, revoluções, guerras, ascensões e quedas de tiranos, de heróis, de imperadores, reis ou presidentes, de regimes, de instituições, de reinos, países, culturas milenares, até ontem, dia 5 de Fevereiro de 2017, o dia em que vi o filme O Meu Tio da América, 30 e tal depois de o ter visto a primeira vez?

O mais provável seria a sua memória de todos esses acontecimentos ser da mesma natureza da minha perante o filme. Ao contrário do que se passa com as pessoas fotografadas no autocromo de Van Besten ou comigo quando vejo um filme de romanos ou passado na Londres vitoriana, a sua memória de todos os acontecimentos passados seria, não apenas arqueológica ou histórica, enquanto posse de um conjunto de informações sobre factos exteriores, mas uma memória que reitera, vivifica, de certo modo, ressuscita para o presente um mundo que passou, tal como eu, ao ver o filme, associo o eu que sou agora ao eu que fui noutro tempo. A história terá assim, para ele, um sentido completamente diferente do que tem para nós. Enquanto para nós a história não passa de uma contínua aprendizagem, e nada mais do que isso, para ele é muito mais do que isso: um contínuo processo de reminisciência de coisas vividas noutros mundos, noutras vidas, e para quem, como diria Platão, aprender não será partir de uma tabula rasa, mas simplesmente recordar.

No caso deste novo/a Orlando, podemos dizer, como na célebre e romântica canção, que recordar é viver. Mas, também, agora mais platonicamente, que viver é recordar. Evitar-se-ia assim o facto de os despojos da história estarem, mudos e quedos, nas profundezas do oceano, e que vemos, depois, apenas com a mesma, ainda que fascinada, curiosidade científica com que um biólogo marinho explora a vida subaquática, inacessível à superfície. Como diria Platão, o nosso corpo e os seus falíveis sentidos tornam apenas possível a consciência do lado superfícial da vida e, por isso, a ilusão de ser apenas real o que os nossos olhos conseguem ver.