09 fevereiro, 2017

OVO KINDER


Dizia Kierkegaard que a multidão não tem mãos. Quando uma multidão comete um crime, não são indivíduos que o cometem mas a multidão em cuja massa compacta desaparecem as mãos. É verdade que a multidão que se vê nesta fotografia, sendo pequena, permite distinguir os rostos individuais que dela fazem parte. Mas isso não anula as mãos, homogéneas e uniformes, a erguerem-se na mesma direcção, sejam as de crianças ou de adultos. O facto de serem mãos de crianças e de adultos pode levar-nos a pensar em dois diferentes níveis de consciência, dois grupos distintos, o das crianças e o dos adultos, presumindo-se que as emoções, motivos e crenças que levam as primeiras a erguerem as mãos, são muito diferentes das emoções, motivos e crenças que levam os primeiros. As crianças estão ali como marionetas, sem saberem muito bem porquê, talvez por mera imitação e contagiadas pelo entusiasmo dos adultos, enquanto adultos erguem as mãos pela sua própria vontade autónoma, livre-arbítrio e um considerável nível de consciência política.

Nada mais falso. Quando se trata de crenças políticas, por muito adultos que sejam os indivíduos, os seus desejos, emoções, crenças, estão muito longe dos níveis de racionalidade que se exigem a um médico quando faz a avaliação de uma doença ou a um engenheiro que precisa de saber como fazer uma ponte que não venha um dia a cair. A política é uma actividade complexa e com um elevado grau de racionalidade mas a relação das multidões com a política explica-se pelos mecanismos mais elementares do comportamento e processos mentais do ser humano. Por que riem aquelas mulheres e homens? Por que riem aquelas crianças? O que sentem uns e outros? Por que erguem as mãos daquela maneira perante a presença de um líder, de um slogan, de um cântico? Certamente que são movidos por forças muito semelhantes. E, a haver semelhanças, não serão as crianças a aproximarem-se dos adultos mas os adultos a aproximarem-se das crianças. E no caso desta fotografia é desconcertante e bizarro o modo como o ovo da serpente pode começar por parecer um ovo kinder que chega alegremente à mão erguida de uma criança.