18 fevereiro, 2017

O PROFESSOR DE HISTÓRIA

Arthur Leipzig | Chalk Games, 1950

Há dias, ao sair do prédio para a escola, tive a companhia do meu vizinho de cima, um garoto do 5º ano com quem havia apenas trocado alguns comentários futebolísticos (sei sempre quando o Sporting marca golo pelos gritos e tremores de terra vindos lá de cima) em duas ou três viagens de elevador. Como saímos juntos lá fomos então juntos a caminho da escola. 

Começámos, claro, com o Sporting, com o meu lado de sádico benfiquista a fazer das suas. Depois, como não poderia deixar de ser, passou-se para a escola. O costume: se gosta dela, da turma, disciplinas preferidas, chegando então a sua vez de me perguntar de que disciplina sou professor. Admito que algo infantilmente, em vez de lhe responder, peço-lhe para adivinhar. Pausa para pensar. Decide então que sou professor de História. Intrigado, mas também surpreendido pela pontaria quase certeira de um garoto que provavelmente nem sabe que há uma disciplina chamada Filosofia, nem conhece os meus interesses pessoais, pergunto-lhe porquê. Percebo que se esforça para tentar traduzir por palavras o que lhe vai no pensamento, até que responde: «Deve ser professor de História pois anda sempre a pé e com ar muito pensativo».

Isto foi há dias e há dias que isto não me tem saído da cabeça, nomeadamente nos meus percursos a pé entre casa e a escola, o que leva um garoto a presumir que serei professor de História, pretextando o facto de andar a pé e de ter, pelos vistos (meu deus, como isto é assustador), um ar muito pensativo. Enquanto ser racional que tenta penetrar nos circuitos mentais de outro ser racional, ainda avancei com a possibilidade de ele ter uma professora de História com ar pensativo e que ande sempre a pé, transformando-me assim, através de uma inferência indutiva baseada numa generalização pavloviana, num professor de História. Mas não. Há uma professora de História da minha escola que anda a pé mas porque mora mesmo ali ao lado. E quanto ao ar, todas têm, como toda a gente, o ar de quem pensa, o que é muito diferente de ter um ar pensativo. Pista anulada, portanto. A partir daqui, restou-me seguir, enquanto ser racional, os normais mecanismos racionais, sejam estes mais explícitos ou implícitos, de um ser igualmente racional ou que se prepara para o ser. Porém, e após muito esforço, nada consigo encontrar que me leve à relação entre a andar a pé e ter um ar pensativo e ser professor de História, o que pressupõe ainda haver razões para pensar que professores de Matemática, Inglês, Português, Geografia, Ciências ou Educação Visual não andam a pé nem têm um ar pensativo.

Em suma, desisti. Porém, não resisto a um certo pessimismo no que diz respeito a dois tipos de problemas. Um deles, o dos qualia, da subjectiva experiência mental de uma pessoa, seja de uma emoção ou de um simples cheiro ou sabor, a qual será sempre inacessível para outra pessoa. Neste caso, por muito que tente, não consigo ter a experiência mental da experiência mental de alguém que pensa ser eu professor de História só porque ando a pé e tenho um ar pensativo. Mas há muito que isto é óbvio para mim, sendo nós iludidos pela natureza esquemática e racional da linguagem, a qual sugere um entendimento claro entre as pessoas, só porque partilham um mesmo código com regras bem definidas.

O outro problema, e este sim, com mais achas para atear a fogueira do pessimismo, tem que ver com o modo como seres racionais constroem e associam aleatoriamente certas crenças que os levam a tomar certas decisões que, por sua vez, os levam a uma acção X em vez de uma acção Y ou Z. Decisões e acções que tanto podem ser as mais insignificantes do dia-a-dia, como a de comprar o iogurte A em vez do B, mas também as mais importantes e que mexem com aspectos cruciais da nossa vida, seja pessoal, seja colectiva, nomeadamente política. O misterioso fluxo argumentativo que levou este garoto a pensar que serei professor de História, pode não ser muito diferente do que leva milhões de pessoas a pensar que um dado político será o ideal para ocupar um cargo importante ou que uma dada resposta será a mais correcta e eficaz a uma pergunta colocada em referendo sobre a saída ou permanência de um país da União Europeia. Já disse que fui infantil ao ter feito a pergunta ao garoto em vez de ter logo respondido. Não escapo, portanto, desse registo. Mas tanto a minha pergunta como a resposta do garoto, faz-me lembrar o que dizia Platão sobre a fragilidade da democracia perante cidadãos cujos mecanismos racionais e argumentativos são muitas vezes obscuros e muitas vezes o resultado de desejos e crenças igualmente obscuros. Por vezes, sobretudo quando as condições são boas, acertam e fazem as sociedades funcionar. Porém, quando não é isso que acontece, resta-nos esperar que a sorte não seja demasiado madrasta até que tudo volte de novo à normalidade.