23 fevereiro, 2017

NOT SPOOK

Gordon Parks

Por mero e absoluto acaso, regresso ao preto e branco, embora noutro contexto. Tive de passar hoje pela Note para imprimir umas coisas. Encosto-me ao balcão, ficando entre dois homens que estão nas pontas, um dos quais preto. Como estavam ambos a tratar de umas encomendas, acabei por ser logo atendido. Diz-me o empregado que são 28 cêntimos. Eu pego na carteira, cheia de moedas pretas que andavam há dias a pesar-me, e preparo-me para dizer o que, há anos, digo sempre em situações semelhantes, com ar satisfeito: «Lá vou finalmente libertar-me das pretas». Há momentos em que sou lento quando deveria ser rápido, há momentos em que sou rápido quando deveria ser lento. Desta vez, tive o tempo de reacção certo para evitar a frase do costume. Senti alívio mas, depois, no caminho para casa, confesso que me inclinei para uma irritante auto-comiseração.

Se há coisa que detesto é o fascismo linguístico do politicamente correcto, tornando perturbadora esta minha cobarde deferência. Eu nasci e cresci num mundo de brancos e de pretos. O Eusébio é preto, o Humberto Coelho é branco. A nossa ministra da Justiça é preta, a nossa ministra da Administração Interna é branca. A Ella Fitzgerald é preta, a Ute Lemper é branca. Já o Nelson Évora nem é branco nem preto mas mulato. Ora, não há qualquer motivo para pensar que na minha referência às moedas pretas estivesse implícita qualquer referência a pessoas pretas das quais, neste caso, me pretenderia libertar. Enquanto processo mental, é completamente tortuoso e absurdo. Porém, tive medo que tal acontecesse, podendo criar uma situação embaraçosa, neste caso, ferir o meu vizinho de balcão, levá-lo a pensar que eu poderia ser um racista cínico a provocá-lo. Repito, reconheço a estupidez do raciocínio, a natureza ilógica e excessiva da minha auto-correcção.

Porém, e ainda a caminho de casa, acabei por entender o seu valor ético. Há um filósofo francês chamado Emmanuel Levinas (1906-1995) que, num livro chamado Totalidade e Contradição diz: «chama-se ética à impugnação da minha espontaneidade pela presença de Outrem». Eu não consigo entender quase nada do que ele escreve mas esta frase é de uma eficácia tremenda para explicar a minha auto-correcção. A minha habitual espontaneidade, no clássico momento de me libertar das moedas, foi impugnada pela presença daquele homem ali a meu lado. Fosse eu um Robinson Crusoe num balcão só para mim e a minha espontaneidade seria assumida sem freios. Mas a partir do momento em que estava ali aquele homem, teria de pensar no que poderia dizer que colidisse com ele. A minha inocência e consciência tranquila, neste caso, pouco valem, antes a sua consequência. Eu sei quem sou, o que digo e porque digo. Mas também sei que há pessoas que, não sendo como eu, podem dizer com outro sentido o que eu deixei de dizer por pensar que seria esse o sentido que o outro poderia pensar sobre o que eu estaria para dizer.

Fiz bem ou fiz mal? Devo manter a irritação por uma estúpida deferência e atrofia do politicamente correcto, ou ficar antes satisfeito comigo próprio por, apesar da consciência tranquila, ter jogado pelo seguro? Para responder, penso no que teria feito o professor Coleman Silk, do romance A Mancha Humana, de Philip Roth, se tivesse podido voltar atrás. Ter-se-ia novamente referido às alunas que não responderam à chamada como spooks, ou teria feito como eu, fechando-se em copas? Dizia James Madison, um dos Pais Fundadores, que se os homens fossem anjos não seriam precisos governos. Mutatis Mutandis, se os homens fossem anjos, eu não precisaria de refrear o meu velho clássico das moedas pretas. Como não são, temos de fazer connosco mesmos o que os governos fazem com a espontaneidade e liberdade com que as pessoas entram no mundo no dia em que nascem.