04 fevereiro, 2017

ESTA NOITE SONHEI COM BRUEGEL


Presumo ser a família Bruegel a mais conhecida de toda a história da pintura. Os mais distraídos, perante a profusão desse nome espalhado por inúmeros museus, julgarão tratar-se de um único pintor. Mas não. Há o pai, Pieter e, de facto, o mais importante e conhecido. Pieter teve dois filhos, igualmente pintores: Pieter e Jan. Para evitar confusões entre pai e filho, ficou um deles conhecido por Pieter Bruegel, o Velho e o outro por Pieter Bruegel, o Jovem. Entretanto, como Jan teve um filho com o mesmo nome, e também pintor como o pai, o tio e o avô, ficou conhecido como Jan Bruegel, o Jovem, enquanto o pai ficou para a história como sendo Jan Bruegel, o Velho.

Mera coincidência envolvendo os nomes, quanto ao estilo e aos temas seguidos, podemos formar duas equipas: de um lado os dois Pieter, do outro, os dois Jan. O Pieter mais novo pouco tem de original, tendo-se limitado em grande medida a reproduzir [com bastante qualidade, de resto] alguns dos temas perseguidos pelo pai. Já os Jan exploraram outro caminho. O pai ficou sobretudo conhecido pelas suas alegorias sobre os cinco sentidos, que podem ser vistas aqui bem perto de nós, em Madrid, assim como pelos seus arranjos florais. Porém, este quadro que aqui vemos, A Festa dos Macacos, bem poderia ter sido pintado pelo pai, homem dado a outro tipo de alegorias bem mais complexas de um ponto de vista social, político e religioso. Ele próprio tem um pequeno mas nem por isso menos enigmático quadro, representando dois macacos, acorrentados numa janela com vista para a cidade de Antuérpia.

Estão bem estudadas as semelhanças entre as expressões emocionais nos seres humanos e animais. Darwin fê-lo ainda no século XIX, mais recentemente, vale a pena salientar um fascinante livro de Eibl Eibesfeldt, etólogo austríaco, discípulo de Konrad Lorenz, chamado Amor e Ódio. São, na verdade, impressionantes tais semelhanças, não só ao nível das expressões mas também do corpo. Ainda assim,  teremos de concluir, por razões óbvias e inerentes às características corticais e neurológicas de ambos, que o processo mental por detrás da expressão emocional de um animal jamais coincidirá com o processo mental de um ser humano.

Lembro-me de ser garoto e estar no Zoo, fascinado, a observar macacos, fascínio que ainda se mantém sempre que calha poder observar os nossos parentes primatas. Hoje percebo que tem que ver com uma semelhança entre os rostos e expressões de macacos, enquanto seres humanos que não chegaram a sê-lo e os rostos e expressões de seres humanos enquanto macacos que deixaram de o ser. O que dá origem a uma grande ambiguidade. Chega mesmo a impressionar a natureza antromórfica das suas expressões, ajudada, é certo pela natureza dos seus rostos. Os desenhos animados estão cheios de animais antropomorfizados, do Pato Donald e Calimero ao rato Mickey e Speedy Gonzalez, passando pelos três porquinhos e o lobo mau. Trata-se, porém, do resultado de uma forte imaginação e criatividade sem grande correspondência com a realidade.

Já com os macacos é diferente, sendo essa a razão por que esta festa pintada por um dos Bruegel não pode deixar de me interpelar. Trata-se, de facto, de uma festa e uma festa no seu sentido verdadeiramente humano. Quer dizer, não se trata apenas de uma palavra para exprimir o que poderia ser um grupo de macacos, dentro de uma jaula ou na selva, contentes e aos pulos numa orgia de bananas e amendoins. A festa é no interior de um palácio, o qual contém elementos decorativos humanos, inserindo num contexto urbano humano. Alguns dos macacos praticam actos exclusivamente humanos como jogar às cartas, a dinheiro, andar com um bule na mão ou estar vestido. Ora, é esta ambiguidade entre o mundo animal e o mundo humano que torna o quadro assustador. Porquê? Porque vemos ali macacos mas também vemos ali seres humanos. Arriscando entrar um pouco mais no espírito do pintor que é, neste quadro, tão filho do seu pai, direi mesmo que vemos ali seres humanos embora disfarçados de macacos. Assusta, porque é este, muitas vezes, demasiadas vezes até, o estado em que a humanidade se encontra, simbolicamente retratado numa festa. Numa festa, as nossas emoções, impulsos e comportamentos mais básicos podem sofrer um desvio face às normais sociais, tornando possível o que é interdito num contexto social normal. Apesar disso, tais emoções, impulsos e comportamentos são regulados por um quadro cognitivo e social que submete o indivíduo a certas regras que impõem limites e restrições, sendo consensualmente aceites por todos os que nela participam. Por muito carnavalesca que possa ser, existe uma ordem que faz com que todos estejam protegidos por expectativas morais e sociais, por uma consciência do bem e do mal, do justo e do injusto, do que é humanamente aceitável ou inaceitável.

Mas olhando para estes macacos, o que podemos esperar deles? Alguém consegue prever os gestos, os movimentos, os actos de cada um deles? Alguém mete as mãos no lume pelo comportamento de algum? Algum ser humano se sentiria tranquilo ali no meio de todos aqueles macacos? Certamente que não. A festa existe mas num ambiente de total descontrolo, sem nada que se consiga prever. Presumimos que pode estar tudo bem entre eles mas também podemos presumir que, de repente, sem se saber muito bem como e porquê, pode passar a estar tudo mal e com consequências imprevisíveis. É por isso que este quadro, no fundo, para além da sua graciosidade, do seu aspecto mais pitoresco e divertido, pode representar um verdadeiro pesadelo. Porque também é precisamente isso que se passa com os seres humanos.