13 fevereiro, 2017

DONALD TRUMP E O GELO DA CONDESSA DE MORTSAUF

Alfonse Van Besten | Inverno em Brugges, descarregando um barco, 1912 [autocromo]

Há momentos na vida em que precisamos de um canalizador, profissão pela qual nutro uma enorme gratidão. É maravilhoso haver gente que goste e perceba de canalizações para, de rabo para o ar, andar de volta de um cano roto enquanto eu me sento no sofá com um romance de Balzac. Esta minha gratidão leva-me até às sábias palavras de Aristóteles quando invoca a natureza intrinsecamente política do ser humano. Ao contrário de um deus ou de um animal, que se bastam a si mesmos, nós fomos feitos para a polis, precisando dos outros para preencher a parte que nos falta. No caso do canalizador, a minha gratidão é ainda maior, pois preciso eu mais dele do que ele de um professor de Filosofia. Vendo bem, sou mesmo um felizardo pois preciso sempre eu mais dos outros do que eles, seja médico, cabeleireira, agricultor ou vendedor de electrodomésticos, de um professor de Filosofia.

Pode parecer algo exagerada uma semelhança entre canalizadores e políticos mas, do ponto de vista dos meus interesses, a lógica é a mesma. Uma casa tem de ser bem construída e com todos os componentes a funcionarem bem. Só assim se pode lá viver confortavelmente e sem grandes sobressaltos. Daí também a minha gratidão para com pedreiros, electricistas, afagadores, pintores ou carpinteiros que fazem as suas coisas enquanto eu ando a falar de teorias filosóficas em aulas onde aproveito para falar dos clássicos da literatura que leio no sofá enquanto o canalizador está de rabo para o ar.

O mesmo se passa com a sociedade e o Estado: precisam de funcionar bem para que a vida das pessoas, em todas as suas dimensões, possa decorrer com toda a normalidade, tendo que haver alguém que faça o serviço. Ora, dou mil graças a Deus por não ter de ser eu uma dessas pessoas. Tal como não me imagino canalizador de rabo para o ar, detestaria, ainda que de rabo sentado, ser ministro, secretário de estado, deputado, presidente de câmara, presidente de junta de freguesia ou membro da Assembleia Municipal de qualquer paróquia deste país onde iria discutir o alcatroamento de uma estrada entre duas aldeias em vez de estar sentado no meu sofá com um clássico da literatura. Atenção, não estou a tirar valor e dignidade à função. Louvemos tão insignes cidadãos que trocam um clássico da literatura pelo alcatroamento de uma estrada. Estou apenas a dizer que, como no caso do canalizador, se trata de um importante e nobre serviço que precisa de ser feito mas que dou graças por haver quem o queira fazer por mim, uma vez que existem cestos e cestos de coisas que me interessam mais do que a política. Claro que o simples facto de acompanhar a política está muito longe do penitente acção de fazer política. Mesmo assim, não troco as belas coisas que o mundo tem para oferecer por assuntos de natureza política, desde que esse mundo, mais à esquerda ou mais à direita, se vá equilibrando com alguma normalidade.

É por isso que entendo lindamente estas palavras de Daniel Dennett no The Guardian de ontem. Mais interessante se tornam ao cruzá-las com outras que li há dias, num clássico da literatura escrito por Balzac, chamado O Lírio do Vale. São palavras de Félix de Vandenesse à condessa Natália de Manerville, estando relacionadas com a sua estadia em casa da condessa de Mortsauf:

Quando desci para jantar, soube [Convém lembrar que, à época, não havia telejornais, a TSF ou o Sapo Notícias] do desastre de Waterloo, da fuga de Napoleão, da marcha dos aliados sobre Paris e do regresso provável dos Bourbons. Este acontecimentos, que para o conde eram tudo, não foram nada para nós. Queres saber, Natália, qual foi a maior notícia que recebi depois de ter acariciado as crianças? A grande novidade para nós foi: «Vai ter gelo!» A condessa tinha-se muitas vezes aborrecido no ano anterior por não ter água bastante fresca para mim, que, não tendo outra bebida, gostava dela gelada.

Para Félix, este é o seu momento Kafka que, no dia 2 de Agosto de 1914, escreve no diário «A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, natação.» Ou o seu momento Luís XVI que, no dia da tomada de Bastilha, também no seu diário, regista: «Rien». Pegando na entrevista, pode-se dizer que o tempo dedicado por Daniel Dennett ao estudo da consciência sem ter de estar preocupado com questões políticas, corresponde ao gelo da Condessa de Mortsauf.

O problema é que por muito aborrecido que seja o envolvimento com esse tipo de questões, o filósofo norte-americano é bem capaz de ter razão quando refere a necessidade de estar mais atento à política. O que fazer quando um perigoso canalizador, em vez de resolver o problema para que foi incumbido, põe ainda mais em risco a canalização lá de casa e, a fortiori, a tranquilidade doméstica? Nesse caso, apesar da natureza desinteressante do problema, faz sentido levantar o rabinho do sofá. Ora, com a política deve passar-se exactamente o mesmo para depois não termos de ouvir a voz cínica de Arnold Toynbee a sussurrar-nos ao ouvido: «O maior castigo para aqueles que não se interessam por política, é que serão governados pelos que se interessam». O interesse de Félix pode estar todo centrado no gelo da Condessa de Mortsauf. Mas se o mundo aquecer demasiado, seja por causa de Napoleão, da marcha dos aliados sobre Paris ou do regresso dos Bourbons, não há gelo que resista.