20 fevereiro, 2017

A TROCA


Tenho um aluno que em vez de dizer filme ou fotografia a «preto e branco», diz filme ou fotografia a «branco e preto». Nas duas ou três vezes em que tal aconteceu, corrigi-o, com espírito de descontracção, diga-se, nada daquele ar de quem se prepararia para, noutros tempos, dar uma reguada. Agora, tratar-se-á mesmo de um erro que deve ser corrigido ou de uma simples e inócua troca sem motivos para reparo por parte de um professor? 

Há trocas que, por motivos de força ontológica, serão impensáveis. Diz-se que um carro é vermelho, nunca que o vermelho, neste caso, é um carro, uma vez que carro é substância e o vermelho um atributo. Noutro registo, desta vez para respeitar a relação lógica entre a parte e o todo, é forçoso dizer que o nariz faz parte da pessoa, nunca que a pessoa faz parte do nariz (tenho a consciência de que se desse como exemplo o sexo em vez do nariz, a coisa complicava-se). Passando da ontologia para um contexto mais pragmático, há trocas que podem ser consideradas legítimas face a grupos de palavras que se dizem em primeiro ou segundo lugar, de acordo com uma convenção. É normal começar um discurso por «Senhoras e senhores», mas não se pode criticar quem, por considerar tratar-se de um atavismo, veja tanta legitimidade num «Senhores e senhoras» como os que antes a vêem no clássico «Senhoras e senhores» por conservarem uma elegante e respeitosa deferência pelo sexo feminino.

Como enquadrar a questão do preto e branco nesta magna problemática de trocas ou baldrocas? Tratando-se de cores, nada melhor do que confrontá-la com outras situações que envolvam cores. O equipamento tradicional do Benfica consiste numa camisola encarnada e calções brancos. Será, assim, tão legítimo poder afirmar «a equipa branca» como afirmar «a equipa encarnada»? Não. A única opção válida é «equipa encarnada». Objectar-se-á com o facto de aqui não se aplicar o argumento da substância, nem o da «parte e do todo». Os calções são tão substância como a camisola, ambas parte de um equipamento no qual uma não existe sem a outra, sendo as cores vermelha e branca, atributos de iguais substâncias. Estão, por isso, também, num nível semelhante. Sim, é verdade. Mas aceitar este argumento levaria a aceitar a possibilidade de, na construção da identidade física de uma pessoa, colocar num mesmo nível o rosto e o umbigo ou o rosto e o cotovelo. O rosto, tal como um dedo, uma perna, um umbigo ou um cotovelo, é uma parte do corpo. Porém, e embora eu conheça algumas pessoas cujo umbigo ou cotovelo acabe por identificá-las melhor do que o rosto, é este que, por razões tanto morfológicas como psicológicas, confere verdadeiramente uma identidade pessoal e única a cada um de nós. Também a camisola tem uma importância visual e simbólica que não se compara à dos calções. É na camisola que está o emblema do clube, o número do jogador, no final do jogo, os jogadores trocam de camisolas, não de calções. Para além disso, tem-se (ou tinha-se) amor à camisola, não aos calções, e embora estes também acabem suados no final, diz-se «suar a camisola» e não os calções.

A coisa torna-se mais complexa se pensarmos em clubes como FC Porto ou o Sporting, aos quais nos referimos como «azul e branco» e «verde e branco». Será que podemos então trocar por «branco e azul» ou «branco e verde», uma vez que são ambas partes da mesma camisola, possuindo o mesmo estatuto ontológico? Não, pois a ontologia não explica tudo na vida. Ao contrário do Real Madrid, do Vitória de Guimarães ou do Farense, clubes que têm no branco a sua identidade, o seu «rosto cromático», já nas camisolas do FC Porto e do Sporting esse mesmo branco surge apenas como alicerce que suporta a identidade, tanto cromática como simbólica, do azul e do verde, o verdadeiro rosto cromático desses clubes. Há, neste caso, uma diferença clara entre sensação e percepção. Quando vemos as equipas no relvado ou num jogo de matraquilhos, os olhos tanto vêem o branco como o azul e o verde. Porém, no nosso cérebro, por razões culturais, tendemos a reforçar mais a presença do azul e do verde do que a do branco, não por se tratarem de cores com mais densidade.

Vejamos agora, finalmente, o problema do preto e branco ou branco e preto da fotografia ou do cinema. O sentido semântico do par «preto e branco», centra-se no facto de, enquanto par cromático autónomo, anular todo o restante espectro de cores. O estatuto das duas cores é, por isso, igual. No fundo, mais do que uma relação entre duas cores hierarquicamente distintas, como no caso das camisolas do FC Porto ou do Sporting, trata-se de uma correlação que torna indiferente a ordem da sua nomeação. Acontece aqui com o preto e o branco (ou o branco e o preto), o mesmo que com as frases «O João e a Joana são irmãos», «O João e a Joana combinaram jantar», que podem ser naturalmente transformadas em «A Joana e o João são irmãos» ou «A Joana e o João combinaram jantar» sem daí resultar mudança de sentido. O mesmo se passa com as proposições «x+y=y+x», 2x3=7-1» ou ainda «Inglaterra e Escócia fazem fronteira»=«Escócia e Inglaterra fazem fronteira». Em suma, dizer «branco e preto» é tão legítimo como dizer «preto e branco». Assunto arrumado?

Não. A referência "preto e branco" não representa apenas a junção de duas cores cuja ordem de nomeação pode ser arbitrária como acontece com dois números, dois nomes de pessoas ou de países. A referência "preto e branco" tem um sentido conceptual, referente a um conjunto de objectos fotográficos e cinematográficos que, por razões históricas ou estéticas, se apresentam com essas duas cores apenas. Se pensarmos no conceito de «ping-pong», facilmente percebemos que poderíamos trocar estas duas palavras que nem sequer têm valor semântico, dizendo «pong-ping». Qual o problema? Não podemos dizer «chuva de chapéu», em vez de «chapéu de chuva» ou «água de copo» em vez de «copo de água». Mas o que é um «ping»? E o que é um «pong»? Não exprimem uma relação entre dois objectos ou duas funções cuja troca levaria a uma perda de sentido. A própria expressão «trocas e baldrocas» aguentaria a sua transformação em «baldrocas e trocas» sem lhe retirar o sentido, pois, ao contrário dos exemplos anteriores, a sua ordem, tal como a de «jogar ao gato e ao rato» ou «lusco-fusco», é arbitrária (No Brasil diz-se Oriente Médio em vez de Médio Oriente). Trata-se porém, no caso do Ping-Pong de um nome de uma modalidade desportiva ou, nos outros, de expressões correntes, cujas ordens de nomeação apesar de convencionais, adquirem força de conceito identificador, tal como acontece com o duplo nome de uma pessoa. Se chamarmos João José ao José João, continuamos a invocar os seus dois nomes, continuam ambos a estar presentes. Porém, a pessoa a quem se referem deixou de ser invocada, perdeu-se como referência, chamando a uma pessoa o que é próprio de outra. Claro que com o «branco e preto» em vez de «preto e branco» não acontece esse problema, uma vez que não exprimem duas realidades distintas. Ainda assim, este último é o nome que se convencionou para um certo tipo de objecto artístico, implicado assim a sua troca a nomeação de algo que não existe. Posso, e devo, por isso, continuar a corrigir o meu aluno. Como corrigirei alguém que me diga que fui «Dar uma volta ao grande bilhar» para se referir ao que eu acabei de fazer.