19 janeiro, 2017

PALIMPSESTOS DE PEDRA



«À porta, Franz ordenou ao cocheiro que estivesse pronto às oito horas. Queria que Albert visse o Coliseu ao luar, tal como lhe mostrara S. Pedro à luz do dia. [...] 
Franz encontrara um meio termo para que Albert chegasse ao Coliseu sem passar diante de nenhuma ruína antiga e, consequentemente, sem que as preparações globais roubassem ao colosso um único côvado das suas gigantescas proporções». Alexandre Dumas, O Conde de Monte Cristo


A recente vaga de terramotos em Itália fez-me pensar na possibilidade de um deles arrasar por completo o Coliseu de Roma e, fosse esse o caso, como deveria ser a sua reconstrução. Não sendo o actual Coliseu o original e voltando-se a um ponto de partida, seria tentador voltar a dar-lhe a sua verdadeira identidade, repondo uma verdade que foi destruída pela inclemência do tempo e da natureza. Se a Notre Dame continua a ser a Notre Dame e o Mosteiro de Alcobaça a ser o Mosteiro de Alcobaça, e sendo isso uma feliz constatação, voltaríamos a ter o que o Coliseu nunca deveria ter deixado de ser e que só deixou devido a contingências ou acidentes que seria bom não terem ocorrido. E falar do Coliseu de Roma é o mesmo falar das ruínas do convento do Carmo, em Lisboa, ou da Vénus de Milo. que é tão bela como o binómio de Newton.

Acontece que, ao contrário da Notre Dame ou do Mosteiro de Alcobaça, o Coliseu, como o Convento do Carmo ou a Vénus de Milo, transformou-se nas suas próprias ruínas, das quais passou a depender a sua identidade, para nós, mais verdadeira do que a original. O Coliseu que hoje existe é o mesmo Coliseu que foi visitado por Goethe, Nietzsche, Overbeck, Keats, Stendhal, Shelley, Burckhardt, Hawthorne, Poe, Zola, Liszt, Wagner, Byron, James, Thomas Mann, Stephen Zweig, Dumas, Hofmann, Baudelaire, Schopenhauer, Mendelsohn e tutti quanti da intelectualidade e cultura europeia. Mais: visitado por toda a aristocracia e burguesia que fizeram o mundo moderno, durante o seu grand ou petit tour. Reconstruir o Coliseu de acordo com a sua identidade original, seria destruir o que a natureza e a história reconstruíram de um modo natural e espontâneo, tal como o fizeram com uma abadia inglesa, um castelo escocês ou uma igreja medieval nos montes Nuba do Sudão. Reconstruir o Coliseu original teria um interesse informativo, permitindo aceder de um modo factual e objectivo à sua original identidade. Seria como ver a maqueta do edifício original. Já reconstruir as ruínas do Coliseu seria ter de volta o Coliseu do qual a história se apropriou romanticamente. Eu não sei o que estará Goethe a pensar nesta pintura. Provavelmente sentirá o mesmo fascínio e encanto que sente Isabel Archer no romance de James, que sente Franz, no romance de Dumas, quando defende que deve ser visto ao luar, ou qualquer visitante que, desviando-se da furiosa turba das selfies, se fascina com o sublime encanto das ruínas que transcende a bela mas racional construção original.

A este respeito, é interessante lembrar a revolta de Almeida Garrett durante a sua famosa Viagem fora do seu quarto, perante a desgraçada ruína das próprias ruínas que deveriam estar protegidas da intervenção humana:

«Santarém é um livro de pedra em que a mais interessante e poética das nossas crónicas está escrita. [...] Mas esta Nínive não foi destruída, esta Pompeia não foi submersa por nenhuma catástrofe grandiosa. O povo de cuja história ela é o livro ainda existe; mas esse povo caiu em infância, deram-lhe o livro para brincar, rasgou-o, mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha, e fez papagaios e bonecas, fez carapuças com elas. 
Não se descreve por outro modo o que esta gente chamada governo, chamada administração, está fazendo e deixando fazer há mais de um século em Santarém. 
As ruínas do tempo são tristes, mas belas, as que as revoluções trazem ficam marcadas com o cunho solene da história. Mas as brutas degradações e as mais brutas reparações da ignorância, os mesquinhos consertos da arte parasita, esses profanam, tiram todo o prestígio»

As ruínas do tempo são tristes mas belas, e é assim, triste e melancolicamente belas, que devem ficar. Ao contrário do que se passa com edifícios, ou até cidades como Varsóvia, que foram integralmente reconstruídos depois de serem integralmente destruídos quando estavam inteiros. Neste caso, trata-se de repor uma verdade perdida, a única que conheceram. Não me chocaria ver, por exemplo, fosse isso possível, o que não é verdade, repostos palacetes lindíssimos que foram destruídos durante a abecassização de Lisboa, passando-se o mesmo com outras cidades, onde os vícios privados, a estupidez ou a simples ignorância, destruíram públicas virtudes arquitectónicas como é o caso da igreja de Santa Maria em Torres Novas, que, já que não foi preservada ou reconstruída depois de destruída, poderia ao menos ser hoje uma bela ruína, mais um belo palimpsesto desenhado pelo tempo ou pela natureza, coisa rara em Portugal.  E o que o tempo e a natureza desenharam para o futuro, deve o futuro continuar a respeitar.