25 janeiro, 2017

LE SILENCE DE LA MÈRE

Mark Rothko

Tornou-se moda, sempre que se faz um minuto de silêncio para homenagear alguém que acaba de morrer, atravessá-lo, ou suportá-lo, com o ruído das palmas. Entendo a ideia. É bonito bater as palmas a alguém que acaba de morrer. Mas um minuto de silêncio é um minuto de silêncio, não um minuto a bater palmas. Bem que se podiam bater as palmas depois de um minuto de silêncio em que é suposto estar em silêncio, como se fazia antigamente. Que dificuldade terão as pessoas com o silêncio? Será assim tão ensurdecedor? Será medo de ficarem presas nele como se fosse uma carapaça de vidro que provoca uma claustrofobia existencial? Será porque leva àquele embaraçoso momento em que se fica sem jeito depois de passar um anjo? Será porque já não se consegue viver sem som ou ruído, estar sempre com um telemóvel encostado ao ouvido, com o som da televisão a ocupar os sofás e as cadeiras vazias à volta da mesa, as lojas sempre com música ou até passear com phones nos ouvidos, transformando o mundo num videoclip sem fim? Talvez aconteça apenas que a dificuldade de uma pessoa perante o silêncio, seja o medo de, durante aquele longo minuto, se desvanecer nas águas profundas de um indiferenciado e amorfo silêncio amniótico. O mais parecido que há com o que nos espera depois do momento fatal, mas já sem águas por rebentar, apenas um infinito vácuo, como diria Pascal. Talvez a voz apaziguadora e reconfortante do ruído das quentes palmas perante o silêncio da morte, seja, afinal de contas, o silêncio da mãe que chega à cama e salva a criança dos seus mais nocturnos medos e angústias.