27 janeiro, 2017

ENTRE O BAR E A SALA DE PROFESSORES


Quando ao percorrermos uma escola, vamos dar cada vez mais com os miúdos sempre de telemóvel na mão, mesmo não estando a ser utilizado, seja na bicha do refeitório, a entrarem ou a saírem do autocarro, quando estão simplesmente a conversar uns com os outros durante os intervalos ou numa palestra, isso pode querer dizer que o telemóvel tende a ser parte do próprio corpo, movida por nervos, músculos ou tendões. Ao contrário das pernas, um elevador é um meio de locomoção artificial. Mas ninguém concebe um prédio com 5 andares sem elevador, fazendo com que se torne um meio natural de locomoção, tão natural que até mesmo quem more no 1º andar o chama para uma descida de 3 segundos. Com os telemóveis pode estar a acontecer o mesmo: a ideia de já não se conceber os movimentos e disposições do corpo sem ele. Talvez, no futuro, a ideia de poder estar sem o telemóvel na mão seja tão impossível como a de construir uma torre sem elevadores ou, indo ainda mais longe, tão socialmente perturbadora como a de estar nu no meio da rua. 

É engraçado observar previsões antigas sobre tempos futuros. Ganha a tendência para imaginar sociedades em completa ruptura com o que se concebe como sendo humano segundo os padrões da época em que é feita a previsão. De acordo com muitas delas, hoje, em 2017, já não seríamos humanos mas pós-humanos, tão estranhos como se viéssemos de outro planeta. Se fizéssemos agora uma viagem no tempo, indo parar à primeira metade do século XIX, e descrevêssemos àquela gente o que somos e fazemos como consequência da evolução tecnológica, provavelmente não iriam acreditar em quase nada. E, se acreditassem, talvez nos apalpassem para confirmar que ainda éramos humanos como eles.

Olhando agora para estes garotos sempre de telemóvel na mão, percebemos que esta metamorfose orgânica da máquina, entre outras dependências face à tecnologia, pode vir a ter um impacto cognitivo, social, civilizacional e até antropológico que não ocorre com dispositivos, até tecnologicamente sofisticados, como um pacemaker ou uma prótese que substitui uma mão ou uma perna, os quais, apesar da sua fusão orgânica, se limitam a exercer funções mecânicas com base numa lógica utilitária. Em suma, será desta que iremos finalmente caminhar para a pós-humanidade?

Cabe agora perguntar se não estarei a ser tão ingénuo como todos aqueles que fizeram previsões no passado, continuando a imaginar uma ruptura que, na verdade, nunca chega a ocorrer. Por causa disto, lembrei-me de um dos meus livros preferidos, o Frankenstein, de Mary Shelley. O ser monstruoso criado pelo bom e generoso dr Frankenstein não passa de um amontoado artificial de próteses. Isso exteriormente. Lá dentro, não deixa de ser um herói romântico. A sua sensibilidade, a sua raiva, o seu desespero, a sua revolta, o seu sofrimento, a sua infelicidade e até o seu amor que desde cedo se manifesta, tudo isso é humano, demasiado humano. Criado em laboratório, supremo artifício, produto da mais sofisticada técnica e ciência, o monstro de Frankenstein tem tudo o que faz com que um ser humano o seja, fazendo com que a sua pós-humanidade seja apenas aparente.

Nós, imaginados como pós-humanos por gerações anteriores, continuamos a ser tão humanos como a humanidade que surge nas obras de Homero, na poesia de Píndaro, nas tragédias de Sófocles e Ésquilo, no teatro de Shakespeare ou Molière, na poesia de Camões, nos romances de Camilo ou nos clássicos russos. Somos social, técnica e cientificamente muito diferentes, vivendo rodeado de próteses por todo o lado? Sem dúvida. Mas, ser humano, ao contrário do animal, é ser naturalmente artificial, inventor, criatura prometeica (O Frankenstein tem como subtítulo O Moderno Prometeu). Assim sendo, viver com um telemóvel na mão não é prenúncio de uma pós-humanidade que emerge mas apenas mais uma faceta de uma humanidade sempre a reinventar-se. Mesmo que um dia deixemos de nos entusiasmar com as aventuras de Ulisses, de sofrer com o destino de Antígona, de rir com as personagens de Molière ou Sterne, de sentir as dores de Anna Karenina ou de Teresa e Simão Botelho porque, pura e simplesmente, deixámos de ler, enquanto sentirmos o que sente o monstro de Frankenstein continuaremos a ser humanos. Se tal deixar de acontecer, então, sim, nós humanos desde imemoriais tempos, faremos parte de um passado que terá deixado de existir.