26 janeiro, 2017

A PRAIA



Diz Tony Judt, que era um homem de esquerda, no seu Tratado sobre os Nossos Actuais Descontentamentos [ill fares the land] que "O que uniu a geração de 60 não foi o interesse de todos, mas as necessidades e direitos de cada um». Geração que perdeu «todo o sentido da partilha de propostas», esvaziando «o consenso implícito das décadas do pós-guerra», e que o narcisismo dos movimentos estudantis e a cultura popular dos anos 60 aumentou a «primazia do interesse privado».

De certo modo, este culto do narcisismo individual e do interesse privado em detrimento da partilha de propostas e do interesse de todos, alimentado à esquerda, não está longe do modelo capitalista contra o qual os próprios estudantes se revoltaram. O prazer imediato? Desejar o impossível? O culto do eu e dos seus instintos privados? O fim dos sacrifícios, das limitações impostas pela conciliação entre o interesse individual e o interesse de todos? A esquerda, que agora se manifesta, com tiques totalitários, de resto, contra a democrática eleição de Trump, não navega em águas muito diferentes das dos working class heroes e WASP's de classe média alta ou baixa que elegeram o actual presidente dos EUA com o objectivo de revolucionar o status quo elitista que tem governado a América, ou do europeu comum que se sente atraído pelos libidinosos devaneios da extrema-direita. No fundo, tanto a América que querem ver grande de novo através da varinha de condão de Trump, como o grande Estado socialista ou fascista onde os interesses de todos coincidem com os interesses de cada um, não são mais do que a expressão de desejos privados travestidos de públicas virtudes, como diria qualquer cínico, fosse este o original grego, um francês do século XVII como La Rochefoucauld ou um alemão do século XIX como Nietzsche.

Ser realista é pedir o impossível, como se dizia nas ruas de Paris em 1968, de acordo com o princípio do prazer e dos nossos desejos? Isto é música para os vampiros do grande capital, cuja ideologia não é de esquerda. Acontece que a ideologia de 60 também não o era, apenas o seu berrante guarda-roupa retórico, ainda que disfarçado por um sóbrio casacão de ciência marxista. Quando se age para revolucionar o mundo, seja a revolução de esquerda ou de direita, e sempre em nome do povo, normalmente são os mais fracos e vulneráveis desse mundo que perdem.