07 janeiro, 2017

A DIVINA INVEJA DO PÉNIS



Coisa estranha a cabeça de uma pessoa. Só isso explica o facto deste artigo do padre, teólogo e filósofo Anselmo Borges ter-me levado até ao jardim do Éden, de Jacob de Backer, meio abandonado e esquecido numa remota arrecadação da minha memória. O que podemos observar neste quadro, passível de ser transformado num verdadeiro tratado de Teologia? Antes de mais, casais, casais e mais casais. O quadro é um hino às múltiplas figurações da vida, à pletórica e exuberante diversidade da vida, representando, enfim, uma vitória do múltiplo sobre o uno. Porém, entre tantos casais há um outro cujo destaque sugere tratar-se do casal dos casais com base numa visão antropomórfica dos vitais elementos masculino e feminino: Adão e Eva.

O primeiro homem e a primeira mulher surgem aqui em dois momentos temporalmente distintos. Mais ao fundo, vê-se o momento da sua criação, com Eva a ser retirada da costela de um Adão já feito carne. Mais próximo, o momento da sua expulsão do paraíso. A expressão de Deus aqui é deveras interessante. Se é normal a sua solícita pose no momento da criação, própria de um obstetra que desempenha com brio a sua função, já o seu ar sereno no momento em que os expulsa do jardim que lhes foi oferecido como lar não nos pode deixar indiferentes. Está muito longe de um Pai Tirano, de ser o Deus maldisposto e rabugento que, tempos depois, desce ao monte Sinai, no meio de chamas, trovões e relâmpagos, ameaçando de morte quem se aproximar dele, e que passa a vida a maçar as pessoas com dilúvios, pragas ou a destruir cidades. O ambiente é primaveril, nada de trovões e ígneas aparições. Deus está calmo, não grita, apresentando mesmo aquele ar complacente e comprometido de quem não consegue esconder alguma vergonha e embaraço pelo que está a fazer. Faz lembrar aqueles árbitros simpáticos que ao mostrarem um cartão amarelo ou vermelho, explicam com elegância e pedagogia o motivo da sua grave mas inevitável decisão.

Como explicar o seu humor benévolo num momento tão dramático como este? Provavelmente terá que ver com um sentimento de duplicidade face ao humano. Num mundo de casais, cosmicamente governado pelo masculino e feminino, há um ser que, apesar de absoluto, transcendente, omnisciente, omnipotente, não tem par: Ele. Um Deus que, perante o esplendor da sua sexuada criação, se descobre triste, só, desamparado. Pior ainda quando, ao adquirirem o conhecimento, Adão e Eva ganham uma consciência de si, do mundo, assim como da própria solidão do Deus que os criou. Os animais, na sua alegre e pastoral inconsciência, continuam sem ter noção de quem os criou, assim como das suas próprias criaturas. Mas Adão e Eva, com o conhecimento extraído da mais famosa árvore de sempre, saíram dessa inconsciente condição em que Deus gostava de os ver. E isso Ele não pode ter perdoado. O jogo tinha regras e eles não as respeitaram: cartão vermelho, portanto. Viver no paraíso e, ao mesmo tempo, ter a consciência do paraíso, será demasiado humilhante para um Deus que criou esse paraíso mas, depois, ao contrário do que se passa nos Olimpos grego e romano, falta-lhe uma deusa ou até mesmo uma simples mortal como Dánae ou Europa para amar, de maneira a que não fique a perder face à sua criação, que não caia na aviltante situação do criador que é ultrapassado pela sua criatura. Sim, cria o homem à sua imagem e semelhança, percebendo depois rapidamente que lhe falta o que qualquer homem possui para dar vida à própria vida: o amor, o sexo. Ele, Deus, apesar de popularmente representado como figura masculina, não tem sexo, sentindo-se naturalmente uma espécie de eunuco cósmico. Cria o homem à sua imagem e semelhança, ficando, ao contrário do que acontece perante um casal de periquitos, peixes ou crocodilos, orgulhoso com isso, vê-se ao espelho através das suas mais predilectas criaturas, mas é nesse momento que percebe o miserável estado de solidão cósmica em que se encontra. Num paraíso de periquitos, peixes e crocodilos em constante processo de acasalamento, sentir-se-ia tranquilo. Já ver no paraíso um homem e uma mulher que fornicam, que gostam de fornicar e, como se isso não bastasse, tendo a consciência de que fornicam, será insustentável para um Deus que se sente mais humano por criar o humano mas a quem lhe falta esse pequeno grande pormenor que o poria no mesmo plano do humano. E nestas coisas da Teologia, o tamanho tem mesmo que importar. Trata-se, pois de um Deus que, sem abandonar o seu divino estatuto, sente ao mesmo tempo um complexo de inferioridade e vergonha perante a fálica natureza humana. Enfim, sente-se comprometido. Expulsa-os, sim, mas sentindo-se ao mesmo tempo culpado, inseguro e consciente do seu estado. Expulsa-os, sim, mas percebendo que tal expulsão contribui ainda mais para essa terrível consciência.

Estamos assim perante uma interessante pista teológica para tentar perceber a necessidade sentida por Deus de passar de verbo a carne, através do filho. Os psicanalistas falam da inveja do pénis a propósito das mulheres. Deus encarnado talvez não seja outra coisa senão o desejo de superar um divino complexo de castração. Pronto, do que vem depois temos uma ideia, graças aos Evangelhos. O que Deus encarnado andou durante os seus 33 anos a fazer, nomeadamente no que a tentações diz respeito, como usou ou não os seus mais primários atributos humanos, se teve ou não filhos, ainda hoje dá água pela barba de muitos especuladores, não teológicos, pois esses não têm dúvidas, mas de escritores e cineastas. Talvez seja ainda esta mesma pista que nos pode levar ao enigma do escândalo da cruz de que fala um famoso teólogo dinamarquês chamado Kierkegaard (não vale a pena tentar dizer o nome pois é impronunciável, soa a qualquer coisa como Kiarkegô): um Deus espetado na cruz, risível, humilhado, reduzido ao grau mais aviltante da humanidade. Como é possível este caminho? Começar como Deus todo poderoso, criando o homem e a mulher, para vir acabar, ele mesmo homem, espetado numa cruz. Porquê a Sua tentação de ser homem, mortal, de ser carne, a mesma carne feita a partir do barro? Talvez a resposta esteja mesmo na Sua expressão neste quadro flamengo, perante duas humanas criaturas ainda com restos de maçã entre os dentes.