08 janeiro, 2017

A ASTÚCIA DA RAZÃO


Há duas ou três semanas, numa disciplina dos cursos profissionais chamada Área de Integração, dando uma aula sobre a União Europeia, perguntei aos alunos se, vendo o telejornal, faziam alguma ideia do que era o Parlamento Europeu, o Conselho Europeu ou a Comissão Europeia. Pronto, uns sim, outros não. Entretanto, há uma aluna que, meio irritada, diz que os telejornais agora só falavam daquele velho que estava doente. Não disse mas pensei, no quanto injusto e ingrato é para um homem como Mário Soares ter dedicado a sua vida a lutar pela liberdade, por uma sociedade mais justa e um Portugal mais europeu, para no final da sua vida ser reduzido à condição de velho cujo estado de saúde aborrece jovens, como é o caso desta rapariga que, graças a Mário Soares, tem uma vida melhor do que a que tiveram os seus pais na mesma idade e muito mais ainda do que a tiveram os avós.

Pode ser injusto e ingrato, sim, mas Mário Soares, onde quer que esteja agora, não se ralará nada com isso. E não se ralará porque ele foi o que quis ser, independentemente do que beneficiámos com isso. Poderia ter sido um advogado de sucesso, com uma vida material confortável, fazendo o que lhe daria mais prazer. Mas não. Lutou, esteve preso, exilado, dedicou décadas da sua vida ao interesse público quando poderia estar apenas centrado nos seus interesses privados. Acontece que para Mário Soares, o animal político, o homem que com Afonso Costa e Salazar forma o trio mais importante da política portuguesa de todo o século XX, o Eusébio, o Joaquim Agostinho, o Carlos Lopes, a Rosa Mota ou o Livramento da política portuguesa, o interesse privado coincide inteiramente com o interesse público. Sendo rico, poder-se-ia dizer que não precisava da política para nada. Precisava, porque respirava, política, transpirava política, os seus batimentos cardíacos eram políticos, transformava em política tudo o que comia ou bebia, nutrindo-lhe o sangue e o espírito.

Cristiano Ronaldo é um jogador que já deu muitas alegrias aos portugueses. Mas ele não se tornou jogador para dar alegrias aos portugueses. Ele tornou-se jogador porque era o que lhe interessaria, o melhor para si, o que lhe daria mais prazer. Eu, enquanto professor, ajudo a formar alunos, havendo mesmo alguns que me vêm dizer que os marquei. Mas eu não quis ser professor para formar alunos ou para marcar quem quer que seja. Eu resolvi ser professor porque achei que seria melhor para mim do que ser advogado, gerente de um hotel ou dono de um restaurante. A humanidade deve muito a Bill Gates mas não foi para que a humanidade lhe devesse alguma coisa que se tornou no que é. Há situações em que o interesse privado e os interesse público estão em conflito. Outras há que o interesse privado e o público se encontram desligados. Outras há, felizmente, em que se encontram, fazendo a felicidade de um mas também da maioria.

Ao estar a centrar-me no seu interesse privado, não estou a ser frio e cínico com Mário Soares. Seria mesmo o último político com quem seria capaz de o ser, ainda para mais um dia depois da sua morte. Bem pelo contrário, até tenho razões para uma hagiográfica despedida. Estive na Fonte Luminosa com 14 anos, mesmo atrás de Natália Correia que fumava imponente a sua não menos imponente cigarrilha, depois da camioneta que nos levou de Torres Novas ter sido várias vezes bloqueada, indo depois, a partir da portagem, onde as camionetas já não passavam mesmo, no carro de um desconhecido que, tal como tantos outros voluntários, fazia o transporte entre os dois pontos da cidade. Meses antes, numa noite fria de Janeiro, ainda sem auto-estrada, fomos de propósito de Torres Novas a Lisboa para o comício contra a Unicidade Sindical, onde Soares e Zenha, empolgaram um Pavilhão dos Desportos a abarrotar. Fui sempre soarista, votei sempre nele, gostava tanto das suas qualidades como dos seus defeitos, e até tenho duas histórias muito pessoais relacionadas com ele que fazem parte do meu muito meu património. 

Seria incapaz de ser cínico com o político português que mais admiro e que mais seguiria, não direi incondicionalmente mas assumindo mais o risco. Lembrar Soares mais como homem feliz do que como um político de sucesso, pensar mais nele a fazer política como quem dorme a sesta, lê e escreve, come ou fuma um charuto, do que em alguém que se sacrificou pelos outros, que lutou pelos outros, e que viveu para beneficiar o país, talvez seja uma defesa perante a ingratidão de muitos, não tanto dos jovens como a minha aluna, que já nasceu num Portugal pós-Soares, mas daqueles que nunca foram capazes de reconhecer a absoluta importância de um príncipe sempre maior do que o seu país.